Quintana

Mário pousa na travessa, diante da Casa de Cultura que, com orgulho, carrega seu nome. Os dias são os de hoje e, como sempre foi e sempre será, ele saiu para o passeio, daquele jeito seu, poético e plácido. A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa, como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo. Caminhos entre passarelas e sacadas do antigo hotel, Majestic, onde Mário vem relembrar tempo e lugar onde morou por doze anos, vida de poesia, longa, breve, tímida, enorme, cotidiana e eloquente. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura.

E vai o Mário pelos espaços de cor rosa eclético, escarafunchando lojinhas e bibliotecas, cinemas e teatros, salas de leitura e exposições, e o Museu de Arte Contemporânea. Como brisa leve, ele passa quase despercebido, sem incomodar, diferente da sua escrita. Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho. Na sala que representa seu quarto antigo – apartamento 217 – revê objetos pessoais. Bate saudade de tudo, da cidade e do povo, dos amigos, de si. A saudade é o que faz as coisas pararem no tempo. Diante de colunas arredondadas e cúpulas, Mário contempla o jardim-homenagem ao Lutzenberger, e se arvora entre as plantas dos banhados, desertos, pradarias e trópicos. O som, calado, inspira o mestre. Um silêncio… este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês. No terraço, ele vislumbra e abraça o grande lago, ali nem tão longe, e flana em sua amplitude. O cheirinho de café o traz de volta, e ele re-pousa. É quase tarde, happy hour de visitantes, que vão se abeirando. Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas. Hora de ir.

Choveu. Lá fora, numa poça grande, à guisa de espelho, Mário vê o reflexo do prédio, rosa-imponente, concreto amado, duplicado. Arte em dobro! Viva, tchê! Nisso, uma folha de jornal, via vento, gruda na sua perna. “Governo diminui verbas para a Cultura, Educação e Direitos Humanos”, diz a manchete. Idiotas. Contra estes ainda não se conseguiu inventar nenhuma arma. A burrice é invencível. Tempo ruim, mas logo passa. Um raio tímido de sol traz, do outro lado da rua, jovens, guris e gurias, estudantes, que surgem entre risos e gargalhadas lindas. Atravessam a faixa, passam ao seu lado e, após cumprimentá-lo, com orgulho, adentram à sua casa. Poeta das coisas simples, Mário sorri, contagiado, e rima presente com futuro. Ajeitando a gola do casaco, caminha até uma lixeira próxima, faz uma bola do jornal úmido e descarta a notícia infame. Eles passarão. 

E sai voando, passarinho que é…

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