Cidade do nosso andar

Amanheceu em Porto Alegre. Ao passar pelo canteiro central da Praça da Alfândega, no Centro Histórico, me surpreendi ao ver um acercamento de pessoas, atônitas, ao redor do monumento. Roubaram as estátuas, dizia um. Isso é impossível, retrucava outro. Como assim, impossível, é só olhar. Cadê os poetas? A essa hora foram derretidos, o bronze tá valendo uma boa grana.

Tentei chegar perto atropelando os cotovelos e tropecei, porque “no meio do caminho havia uma pedra”.

Refeito do tombo, pedi que o povo se acalmasse. Falei que as estátuas poderiam ter sido retiradas para manutenção. Lembrei que isso já ocorreu antes, quando roubaram o livro das mãos do Drummond, e quando vandalizaram a ambos com tinta amarela. Sugeri que chamássemos a guarda municipal e tudo seria esclarecido.

Os guardas perfilaram-se ao redor do banco com poses de paisagem, para que ninguém se aproximasse. Em seguida, chegou o pessoal do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que se eximiu e chamou a Polícia Federal para investigar o ocorrido. O tumulto estava formado: repórteres, emissoras de rádio e televisão, todos a postos. Até o vizinho Batalhão do Exército enviou uma patrulha para conter a multidão, se necessário fosse. E o mistério continuava.

Fiquei imaginando os dois não muito longe dali, no Parque Farroupilha, caminhando compassadamente.

– Excelente ideia a tua, Carlos.

Sim, Mario, é muito bom rever as ruas e conhecer lugares de Porto Alegre. Ainda bem que tens “O mapa” para nos guiar. Olha aquele passarinho, te lembra alguma coisa?

Ah, são tantas as lembranças …. Esse cheiro horrível, o que será? Bah! Pisaste num cocô de cachorro. Esfrega o sapato na grama.

Aquele container cheio de policiais, ali, no meio das árvores, do que se trata?

Eu sei lá, Carlos. Parece um monstrengo, igual a outras aberrações que vi, atravancando os passeios pelo meio do Parque.

E agora, Mario?

– Vamos voltar. Isso me faz sentir “uma dor infinita das ruas de Porto Alegre”. Prefiro sentar naquele banco, o meu derradeiro repouso.

No final da tarde a polícia recuperou as estátuas, escondidas num galpão abandonado. Permaneceu a dúvida, quanto aos poetas vistos conversando no Parque Farroupilha. Não foi possível identificá-los.

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