Virtual virtuoso?

A imagem das mãos de uma criança manuseando a areia tem múltiplos significados, podendo ser vista até como banalidade, principalmente no verão, quando milhares de famílias se aglomeram nas praias durante as férias escolares. Prefiro interpretá-la como uma figura histórica, de um tempo em que a convivência com elementos naturais, seja no litoral ou no campo, era uma rotina na vida das pessoas.

Sem ser nostálgico, quero invocar as brincadeiras que fizeram parte da minha infância: cantigas de roda, amarelinha, estátua, esconde-esconde, bolinhas de gude, carrinho de lomba e muitas outras. Demandavam uma atividade física e facilitavam a socialização, além de incentivarem a criatividade e a auto estima, fazendo com que se percebessem protagonistas. Certamente também fez parte enfiar as mãos na areia ou na terra, tal qual os dedos gordinhos fotografados.

A evolução da ciência e a criação de invenções tecnológicas são inexoráveis. Para o bem ou para o mal, elas aí estão incorporadas ao viver contemporâneo, no trabalho e no lazer. Lembro que, quando surgiram as calculadoras digitais, um professor tentou impedir que as utilizássemos em sala de aula para fazer os exercícios de matemática. Prejudicaria o raciocínio lógico para resolver as questões, dizia ele. A proibição logo foi desfeita e o professor demitido.

Penso que as facilidades criadas pela tecnologia devem ser assimiladas da melhor forma possível. O que preocupa é o exagero e a utilização desregrada pelas crianças. Vivem inebriadas pelos aparelhos celulares, tablets e computadores. Passam a maioria do seu tempo clicando. Interagem apenas através de jogos virtuais. Na televisão assistem pessoas jogando e comentando suas jogadas, como se estivessem transmitindo uma partida de esportes individuais.

Como disse ao relacionar as brincadeiras antigas, não foi com a pretensão de um retrocesso, mas com o intuito de ilustrar uma referência histórica, para melhor entendermos esses novos tempos e vibrarmos com aquelas mãozinhas revolvendo a areia e, na sua imaginação, construindo um magnífico castelo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima