Porto Triste

O monumento aos Açorianos, a lembrar as origens da cidade; o domo da catedral, que se impõe na paisagem do Centro Histórico; as ruas e avenidas que se estendem por quilômetros, levando carros, ônibus, gente apressada; e os prédios, antigos e novos, a ocupar o horizonte, sempre mais, sempre mais…

Porto Alegre, onde estão suas árvores, altivas, amorosas, tão numerosas que já a fizeram reconhecida como a mais arborizada capital do país? Ofereciam sombra aos que buscam fugir do sol dos verões úmidos, hoje são abrigos malcheirosos aos desamparados que não dispõem de teto.

Nosso Guaíba, rio-talvez-lago, onde brinquei, nos verões de infância, em areias limpas e águas claras, hoje é palco de hordas barulhentas que se amontoam à beira do rio-talvez-lago e por ali distribuem seu lixo, refratários à beleza do sol que morre em resistência colorida; antes uma estrada líquida que carregava em suas ondas tantas embarcações que chegavam ao porto movimentado, hoje local desimportante, buscando novas funções que tentam a aproximação tardia dos habitantes com a orla; e os aterros, tão numerosos que sepultaram para sempre antigas imagens de casarios à beira da praia e de ondas que, em dias de chuva, faziam as pessoas se apressarem ao passar em frente ao Pão dos Pobres, para não correr o risco de receber uma lufada de água.

Os morros que circundam a cidade reinavam, a colorir a paisagem de onde quer que se olhasse; hoje a ocupação desenfreada de seus espaços encobre o verde dos morros, agora cobertos por condomínios de casas e edifícios. E outros prédios, mais altos, postados em frente ao rio, empanam o brilho do sol, fazendo mais curtas as tardes dos que habitam em torno.

Não sei se o que me domina hoje é saudosismo ou simplesmente saudade. Da cidade que escolhi como um porto seguro e que hoje vejo transformada em um porto triste. De tudo aquilo que poderia ser e não é.

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