Lúcia – uma personagem

Quando Leonor abriu a porta deparou-se com uma jovem negra, de porte atlético, cabelos cortados rente, vestindo uma calça jeans, blusão e tênis masculinos.

— Entra e senta aqui — disse, mostrando-lhe a cadeira. — Como é o teu nome? E o que sabes fazer?

— Meu nome é Lúcia e eu faço qualquer coisa. Menos matar e roubar.

Assim, tudo combinado, ela passou a trabalhar como cozinheira. De poucas palavras, parecia regulada pelo relógio: entrava às oito da manhã e às quatro em ponto estava na porta do elevador. Aprontava o almoço às 12 horas, estivesse a patroa com fome ou não.

A vida seguia seu ritmo normal. Conversa, só com a copeira. Essa levava os mexericos para Leonor que, aos poucos, ficava sabendo da intimidade da outra: tinha uma filha adolescente e uma companheira, a Rose. A casinha onde moravam era própria. Conversa com a patroa só a respeito de serviço. Não dava ousadia.

Um belo dia, a copeira veio toda nervosa contar que a encontrou chorando no quarto. O que foi? o que não foi? A casa caiu. Não é que a Rose, tão amada Rose, arrumou outra mulher e despejou-a com filha e tudo? Daí em diante tudo desmoronou: a comida já não era tão boa e o humor azedou.

Com a pandemia, começaram as regras obrigatórias de confinamento e o uso de máscaras. Ela, desnorteada, parecia nem notar. Morava aonde lhe convidassem. Passou a frequentar o boteco da esquina; deixou os cabelos crescerem e pintou-os de vermelho. Foi a gota d’água. A saúde da família corria perigo de contágio. Acertaram as contas depois de quatro anos de convívio.

E o mundo não acabou.

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