Janelas

A mãe chega do trabalho e mal respira antes de começar o preparo das próximas refeições; a filha adolescente gostaria que já fosse sábado, noite sem estudos e sem culpa; o namorado chora ao ler a mensagem da moça que não quer mais saber dele; o pai beija as crianças, recomenda que se comportem e sai para o plantão; as crianças se jogam nas almofadas para assistir ao programa favorito na TV paga; o bebê chora de cólicas; o casal de idosos se acomoda no sofá para ver a novela e, de mãos dadas, agradece por não ser noite dos filhos largarem os netos ali; a babá suspira ao ver a primeira estrela e deseja que chegue logo a folga; o escritor se angustia por não ter escrito nenhuma página durante o trabalho oficial; o professor de ginástica encerra a jornada de doze horas e cuida das gêmeas para a mulher descansar; os recém-casados escutam um podcast e se dividem para fazer a faxina, não querem a casa suja mais uma semana; o garçom olha para o horizonte antes de circular entre as mesas e servir os drinques; o músico espera pela lua, para encontrar as notas perdidas; o maestro experimenta a gravata borboleta para o último espetáculo; a pintora copia as cores do céu; o padre abençoa os fiéis no final da missa; a moça se despede da capital, e gostaria de ficar; o rapaz chega de viagem, mas preferia não ter voltado; o guri de treze anos deseja que chova, para não sair com o cachorro; o homem começa o jejum para a cirurgia; o grupo tem prova na manhã seguinte e não aguenta mais estudar; a tia pensa em tomar um chimarrão, mas lembra da madrugada em claro.

Alguém sorri e dança sozinho. O púrpura fecha o dia enquanto as vidas lançam luzes sobre a cidade.

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