Composição

Eu engoli uma bolha. Juro.

Uma bolha de sabão que eu guardava no bolso da calça do uniforme da escola. Como de costume, ela se alimentava de uma mistura de pó azul e pequenas pedrinhas mágicas de areia grudenta da sola dos meus tênis. Mesclada por cores disformes, esperava que ninguém estivesse perto para flutuar solta pela minha órbita. Translúcida, dentro dela cabia o mundo, mas isso toda bolha faz.

Com a mesma displicência, ela refletia o parque e as luzes do sol e logo depois meus lábios cerrados e um pedido de que não fosse tão alto que eu não pudesse alcançar. Lembro deste sentir aflito de quem deixa uma coisa tão frágil correr solta e sem destino. E se o vento não virar, nunca mais voltaria? Eu argumentava sem resposta. Esta é a grande diferença entre bolha e balão – enquanto um aceita ser preso no pulso amarrado com um barbante até murchar, a outra corre solta e tão livre que escorrega ao apertar das mãos.

Foi por isso que eu a comi.

Essa coisa de voar sem destino e ser tão delicada me assustava. No escuro, ela não resistiria ao monstro que morava embaixo da minha cama. No frio congelaria e no calor derreteria no ar seco. Com a chuva rolaria pelo chão até misturar-se com as poças d´água. Um grito poderia fazer vibrar e explodir. Não há cautela dentro de uma bolha e tem tantas coisas perigosas neste mundo. Ir para onde o vento sopra sem medo de se dissipar era uma temeridade.

E devorei sem mastigar.

Sem me dar ouvidos, ela percorria todos os caminhos que lhe eram abertos. Entrava por frestas de portas e janelas, saia sem rumo por lugares que nunca imaginei. Passei a não achar mais graça em correr junto e sentir a vibração da vida pelas imagens que, ao refletirem na minha bolha, moravam em mim. A situação era insustentável e o tempo me fazia entender que a graça da vida é ser linear, água com açúcar, papel de embrulho e gelatina sem sabor.

Senti o gosto do sabão entre os meus dentes e esperei.

O tempo de mansidão, sem bolhas flutuantes e redentoras, sem dias de caprichos e risadas de boca-aberta nunca chegou. Em mim as veias ainda pulsam o ímpeto de correr sem-vergonha, cheia de vontades que se multiplicam em assopros sobressaltados. A vida vibra nos meus pensamentos. Eu sinto o perfume como reticências flutuantes.

Não me segure – aqui dentro moram bolhas de sabão.

Compartilhe!

2 comentários em “Composição”

  1. Viviane chaves intini

    Ai meu Deus, este texto lindo com um comentário lindo deste. Parabéns, Caroline Anversa e parabéns tbm pra Marina, tua musa inspiradora, vcs duas juntas fazem maravilhas.

gostou? comente!

Rolar para cima