Além do faz de conta

Bem ao sul de um gigante país, fica uma cidade que se fala muito Alegre, mas que também é triste, porque não há como ser diferente. Não é a minha cidade, já que nela não nasci. Hoje é onde vivo, sem saber do amanhã. É a terra dos meus filhos, por ela luto e trabalho, o que a torna um pouco minha.

Mesmo longe do oceano, água não lhe falta. Um lago a cerca e abastece. Para alguns, é um rio. Ilhas a embelezam. Um arroio a atravessa. É um pouco real, um pouco faz de conta. Por isso é que os passantes não enxergam a sujeira do Dilúvio e das margens do Guaíba. Tem água também no ar. Desagradável? Não, arborizada. Jacarandás, cinamomos, ipês e outras mais. Colorida e linda de ver e transitar.

É conhecida por ter as quatro estações bem marcadas, o que pode ser outro faz de conta. Um calor de rachar no verão, só que também pode esfriar. No inverno, faz frio, nem sempre intenso, e também aquece um pouco. No outono, época das temperaturas amenas, as folhas caem, quando não depois. Treme-se de frio, sua-se com o calor ou nem tanto. O mesmo acontece na primavera. Época do florescer, um pouco antes talvez. E seus cidadãos já aprenderam que as quatro marcadas estações podem acontecer num mesmo dia.

Nessa cidade sem igual, vive um povo mais que tri, o gaúcho. Lutador e um pouco encrenqueiro, adora uma disputa. Lindo de morrer! Educado na sua grossura urbana. Bem-humorado, a não ser com estranhos. Aliás, estranho é quem não carrega um guarda-chuvinha, porque, a qualquer hora, pode chover.

Aí é um Deus nos acuda! Todos correm e saltam pelas poças que rapidamente se formam ou abrigam-se embaixo das marquises. Se o aguaceiro é abundante, transforma-se em correntezas, que arrastam carros e gente, invadem casas, e isso não é faz de conta.

Quando sopra o vento, o Minuano é o mais famoso, expulsa as nuvens. Cai a tarde. É tempo de espiar pelas janelas, subir aos terraços, sair porta afora, acomodar-se nos morros e na orla. Está na hora do sol se pôr. O céu se enche de cores, assim como as águas, seu espelho. Pode-se, quem sabe, vislumbrar o arco íris, ainda que o pote de ouro só alguns consigam encontrar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima