Tetê Lopes em foto de Jorge Almeida

Vidinha

Tetê Lopes

Olha só se não é pro cara ficar maluco, ainda na semana passada eu tinha emprego, tá que era uma droga de emprego, passar o dia inteiro olhando papéis e vendo em qual escaninho deve ir este ou aquele documento, chamavam de documento, mas era papel, mesmo, só ver se tinha assinatura do fulano, depois meter o carimbo e largar em cima da pilha, então ir colocando os malditos papéis nos escaninhos, mas, no final do mês, tinha o dinheirinho pouco mas certo ali na conta, dava pra pagar o aluguel, fazer um ranchinho e até, no primeiro domingo do mês, levar a patroa pra jantar, se é que se pode chamar de jantar, era o xis ali da esquina, mas era um programinha, pô, ela ficava livre da louça da noite e, na volta pra casa, com a cervejinha nos deixando alegres, a gente ainda fazia um amorzinho legal, tá bom, básico, mas dava pro gasto e a gente dormia agarradinho até de manhã, quando então recomeçava a porra da semana de trabalho.

Eu falei patroa? Pois é, até a semana passada também tinha a Lurdes pra aliviar um tanto essa rotina infeliz, mas de repente ela começou a achar pouco aquela coisa de só um domingo por mês, começou a negacear na hora do bem bom, e só daí é que o panaca aqui foi notar que o Samuca, o vizinho do lado, cara forte pra cacete, que antes ficava mais pros fundos da casa, agora fazia questão de estar no portão cedo, pra me dar bom dia quando eu saía de manhã, com um risinho meio atravessado na cara, o safado, daí na semana passada a Lurdes veio com a história de que sempre quis conhecer o Nordeste, que comigo não dava nem pra pensar, a grana sempre curta, que ela já tinha cansado de esperar as coisas melhorarem, e que resolveu aceitar o convite do Samuca, que tinha família na Paraíba, pra ir viver uns tempos por lá, eu fiquei varado, mas segurei a onda, não queria levar outra Maria da Penha nas costas, falei que ela tinha direito de ser feliz, que fosse em paz, essas besteiras, e fiquei me moendo por dentro, mas o grandalhão do Samuca metia medo, cara, daí me enfiei na garrafa até de manhã, já não tinha que sair cedo pro trabalho, mesmo.

Hoje vim aqui pra beira do rio, assentar um pouco as ideias, e ainda carrego junto o cachorro pulguento do Samuca, que ele deixou na casa e agora – adivinha? – tenho que cuidar! Ô vidinha miserável, meu!

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