Tetê Lopes em foto de Iara Tonidantel

Preto e branco

Tetê Lopes

No verão de 1971, minha melhor amiga foi jantar com o namorado no restaurante Bologna, então tradicional na zona sul de Porto Alegre. Sentaram e esperaram ser atendidos. Um garçom passou e virou o rosto. Outro garçom fazia-se cego aos acenos daquela mesa. Nenhum garçom os atendeu. Depois de muito tempo, e de verem os outros clientes serem considerados, desistiram e deixaram o local. O namorado era branco, minha amiga é negra.

Essa mesma amiga acompanhou-me ao pediatra, numa consulta do meu primeiro filho, em 1972. O médico, de imediato, adivinhou-a babá da criança. O estereótipo estava completo: a mãezinha branca, um belo bebê branco e uma moça negra.

Minha outra amiga, por casualidade também negra, em seu primeiro dia de trabalho no banco em que eu já trabalhava, em 1980, foi convidada pelo vigilante a usar a entrada do “pessoal da limpeza”.

Notícia do UOL, de ontem, 4 de novembro de 2019, citando como fonte o Washington Post: Uma família, formada em grande parte por negros, comemorava o aniversário de uma criança, num restaurante da cidade de Napperville, Estados Unidos. Um cliente sentado próximo alegou que não queria estar “perto de pessoas negras” e pediu a um funcionário que o grupo fosse convidado a se retirar. Confusão formada, a família acabou deixando o local. Comentário de um familiar: “Em 2019, esse tipo de comportamento não deve ser aceito”.

Certo? Errado! O racismo não deve ser aceito jamais, nem em 1971, nem em 2019, nem em 2050!

De onde vem isso, essa torpeza? Sim, tivemos uma escravidão cruel e longa no país. Sim, fomos os últimos a declarar abolição do regime escravo. Mas já se passaram mais de 100 anos! Como podemos admitir que o nosso igual tenha que se preocupar em vestir-se bem para não ser confundido com bandido? Que faça uma preparação prévia ao entrar numa loja, para não permanecer por muito tempo a escolher roupas, pois sabe que o vigilante logo virá confrontá-lo?

Meu professor de Filosofia do colégio, ao ser contestado por um aluno que imaginava ser o racismo do sul dos Estados Unidos algo resultante da cultura local, explodiu: “Absolutamente! A igualdade não é um valor relativo, mas absoluto, e como tal não está sujeito a contestações”. Palavras que ainda hoje, no século 21, são cruciais.

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