Terry Widener por Graciella Tomé

Não sei bem 

Graciella Tomé 

Podem entrar. Vamos sentando. 

Observo.

Rostos lançados para lados diferentes, olhares perdidamente alçando o vazio. Corpos: um a noventa graus, outro, a duzentos e setenta. Se buscam, é bom.

Sofá largo permite lugar eleito e mãos destravadas permitem o entrevero.

Cabeças pendem opostas. Para um parece que o outro nem está e, para o outro, não sei bem. 

Corre eletricidade, fio condutor: os braços e a presença. 

Porém, essa é só a minha leitura naquele hoje, disso eu sei, porque a voltagem que excede e corre naquelas veias somente cada um deles sabe, ou nem isso.

Se observam.

Os shows que deixaram de ir. Os elogios que não souberam ouvir. A ajuda que não ofereceram. Os olhares que não cruzaram. Bocas que não beijaram. Dilemas que não atravessaram.

Hoje estou aqui para eles.

Para as músicas não cantadas que só fizeram engasgar tantos risos. E, para o sexo nessa cama que dividem. E… Estou para que deles não se descuidem.

Lembrei, que, se sinto corrente neles é porque deve ter o suficiente para acordarem do pesadelo do esquecimento, antes que esqueçam o caminho de volta.

E, se acreditarem que ainda há tempo de fazer tudo outra vez: sair, viajar, transar, madrugar, ouvir, ver, escrever, amar muito. Que voltem de mãos dadas ao seu bem querer.

Terminando, desejo boa semana e eles saem. Aceitaram(?). A corda de salvação está deitada na cama junto deles, esperando que rolem seus corpos sedentos sobre ela.

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