Steve Johnson por Maristela Rabaiolli

Inexorável mudança

Maristela Rabaiolli

Mudaram as estações, nada mudou.

Mas eu sei que alguma coisa aconteceu,

Tá tudo assim, tão diferente”

Cássia Eller

Ano passado, participei de uma seleção de professores promovida pela CAPES. Meu projeto, que visa a ensinar inglês para pessoas em situação de rua, foi contemplado. O prêmio: viver dois meses no Canadá – durante o verão – para estudar a cultura e o sistema educacional canadenses. Além de mim, noventa e nove colegas, das mais diversas áreas do conhecimento, integravam a comitiva. O grupo foi dividido em dois: metade ficou em London, e a outra metade em Niágara, cidade das famosas cataratas. Ambas se localizam em Ontário, província que faz fronteira com o Estado de Nova Iorque, nos EUA. Fiquei no primeiro grupo.

A viagem até Toronto foi longa. Como não conseguia dormir, passei a noite conversando com os comissários: um indiano, que falava italiano, e dois brasileiros, Fábio e Marcelo, residentes no Canadá. Marcelo da Luz, além de comissário é inventor. Seu nome consta no livro dos recordes, pois foi o primeiro a atravessar o Polo Ártico dirigindo um carro movido à energia solar que ele mesmo projetou. Como vocês podem perceber, a viagem começou bem. Além da amizade dos rapazes, recebi valiosas dicas sobre o país.

Em London, ficamos hospedados em casas de família, as famosas homestays. Alguns ficavam em duplas, mas eu, felizmente, fiquei só. A que me acolheu acabara de se mudar para a casa nova. Uma residência superbacana, sem muros, num bairro planejado, com casas idênticas, igual a gente vê nos filmes. A esposa, Surangkana, tailandesa de 39 anos, tem um casal de filhos: Tao, 21 anos; e Lyn, 19. O marido, James, é canadense. Eles eram legais, mas a comida! Apimentada e exótica demais pro meu gosto. A higiene da casa também deixava a desejar, mas esse é assunto pra outro texto.

O curso, no Fanshawe College, foi incrível. Tivemos aula com professores canadenses e brasileiros, e, durante as aulas, foi possível conhecer a fundo o sistema educacional que é o 6º melhor do mundo. Dói na alma ver o quanto o Brasil está atrasado nesse quesito. Além das aulas, havia sempre atividades extraclasse, assim pudemos conhecer parques, museus, galerias de arte, praias. Foi realmente fantástico. Conhecer a residência do Dr. Banting, ganhador do Nobel de Medicina em 1923 pela descoberta da insulina, foi uma experiência maravilhosa.

Tudo no Canadá é bacana e funciona bem. Além de London, conheci Hamilton, Toronto, Niagara e Ottawa, a capital. Infelizmente não pude conhecer Quebec e Montreal, o que me motiva a voltar. Cada cidade tem seu encantamento. Em Hamilton assisti ao musical Billy Elliot e tomei banho de cachoeira pela primeira vez – sim, precisei sair do Brasil pra fazer isso –, em Toronto, fui, com uns amigos, conhecer a noite. Nos divertimos à beça! As lindas cataratas, em Niagra, dispensam apresentações, mas não são mais bonitas que as de Foz do Iguaçu. A diferença é que as horseshoe falls congelam no rigoroso inverno. Em Ottawa, visitei a Galeria Nacional, onde há, além da famosa Spider, escultura da francesa Louise Bourgeois, obras de artistas do mundo todo. Foi um deslumbramento!

Gostei de praticamente tudo no Canadá. Mas o que mais me encantou foi perceber que, à medida que o verão findava, o outono começava a pintar de ocre as folhas das árvores de maple, carvalhos e olmos. Fenômeno conhecido como fall folliage. Coisa linda de se ver! Mas, como tudo que é bom dura pouco, tive de fazer a viagem de volta antes do inverno pintar de branco a paisagem. Diferentemente da música de Cássia Eller, as estações mudam, e nós também. Diante de tanto deslumbre, é impossível permanecer imutável.

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