Steve Johnson por Dora Almeida

MOSAICO SANTA SEDE 2020

Paisagens

Dora Almeida

Final de ano, calor, viagem. Um passeio de carro pelo Uruguai, entrando por Jaguarão e Rio Branco, depois Montevideo e Colônia do Sacramento . Na volta , Rivera e Livramento. Muito bom para começar 2020. Lembranças de tempos idos. Longínquos. De jovens em viagem de núpcias, viagem de trem, muito frio naqueles tempos.

Desta vez faz calor. O sol forte ilumina o pampa. Algumas paradas no caminho, um pomello geladinho para refrescar. Em Montevideo, belos passeios pelas ramblas , mate e sol na orla do Mar del Plata, cujas águas dizem ser doces e também salgadas . As feiras, os restaurantes. Ah , a culinária uruguaia! Uma visita emocionante ao Museo de la Memória. As lágrimas escorriam pelo meu rosto. Tristes tempos!

E as festas de Ano Novo. Fogos, amigos, afetos. Abraços, votos, o ano de 2020 seria um bom ano.

Novamente a estrada, a carretera, até Colônia. A cidade antiga, a muralha, a beira do rio com sua vista arrebatadora, o povo simpático e gentil. Algumas compras, também. Malhas burma para usar no inverno, luvas e cachecol combinando. Meias de lã.

Depois de Colonia, atravessar o Uruguai até Rivera. O verde da paisagem. Os cerros chatos na altura de Corrales, terra de minha avó materna. Em Rivera, uma passada nos free-shoppings, um perfume, um batom vermelho. E no supermercado também, como não levar algumas garrafas de Medio y Medio , erva-mate Abuellita e doce de leite?

Em casa, a paisagem de Porto Alegre no verão. Depois do Carnaval, um passeio a Maceió. Praia, mar, falésias coloridas, água de coco. Planos de novos passeios durante o ano. Os nordestinos, amáveis, sorridentes, hospitaleiros. Adoro o Nordeste! Quem sabe voltamos em julho ou agosto?

Foi quando alguém começou a falar em um vírus mortal, vindo da China, que já havia feito uma vítima no Brasil. Não nos preocupamos, vírus aparecem toda hora. Quando os médicos não sabem o que temos, dizem – é uma virose, vou passar uma receita e o problema está resolvido.

Mas não foi bem assim. A paisagem começou a mudar radicalmente. Todo mundo dentro de casa. Ruas vazias. As pessoas com seus rostos cobertos e o mundo visto por uma tela. Depois da primeira morte, no mês de março, hoje contabilizam-se mais de 160 mil vidas perdidas, só no Brasil.

Olho, no guarda-roupa, as malhas burma, novinhas, as luvas e o cachecol sem uso. Passei o ano com o velho e confortável casaco de moletom, dentro de casa, vendo o tempo passar na janela. O batom vermelho, sob a máscara, não tem a menor graça. Só aproveitei o Medio y Medio , o doce de leite e o mate.

A viagem é outra, agora. E a paisagem, nada bonita.

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