Soraia Schmidt em foto de Tom Saldanha

The End

Soraia Schmidt

Belinha aplaudia de pé e com os pés. Aos pulos, suas botas ecoavam no chão forrado de improviso com tábuas para proteger do barro formado pela chuva que viera, furos adentro, na velha lona do circo. Saltava com mãos para o alto e gritava:

– BRAVO! UHU! VIVA !

Ela era toda empolgação. Emoção pura. Só ela, a única expectadora naquele dia.

Ao final da apresentação, o palhaço Lalau atira-se ao chão do picadeiro.

Cansado, desolado. O olhar doce para Belinha, sua última platéia.

Um misto de tristeza e alegria, encantamento e ternura.

Braços semi-abertos repousavam sob pernas escancaradas, como asas cansadas.

Mãos calçadas em sapatos. Sapatos como ponta de asas.

As costas dobradas, jogadas sob um encosto qualquer. Todos extenuados: pernas, braços, mãos. Corpo inteiro.  Expressavam o inevitável adeus.

Mas, o inusitado dos braços em asas com  mãos calçadas em sapatos pareciam guardar uma promessa.

De que se poderia caminhar em vôo, ou voar numa caminhada.

Poderia ser um começo em vez de só um fim.

Alçar-se num novo caminho a ser trilhado.

Sim. Elas seriam um par de asas. As mãos calçadas em sapatos.

Os olhares encantados mútuos, fizeram a magia. Para ambos.

 

Belinha e Lalau nunca mais se encontraram. Cada um seguiu abastecido com a energia daquele encontro. Ele tornou-se um renomado ator de teatro e Belinha empresária, mantenedora das artes populares.

Os dois guardaram para sempre aquele misterioso brilho no olhar:

A força e vitalidade das pessoas que acreditam.

A esperança.

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