Silvia Duncan em foto de Anelise Barra Ferreira

Sirene

Silvia Duncan

 

A sirene da fábrica soou estridente, anunciando a hora do almoço.

Operários vestidos de macacões brancos, onde manchas de graxa pareciam se grudar as outras, dirigiam-se ao refeitório. Parecia uma procissão de formigas em busca de alimento.

Ao entrarem, um cheiro de fritura e ranço lhes dava boas-vindas. Acotovelavam-se nas mesas de fórmicas cobertas com toalhas de plástico. Bandeirolas penduradas, com anúncios de cerveja, tremulavam como dançarinas bêbadas, ao som dos ventiladores de teto.

O refeitório era onde viajávamos, eu e meus colegas, sem passaporte, apenas com a esperança de um dia melhor. Cozinhávamos nossos sonhos em banho-maria, entre uma garfada e outra. Espantávamos algumas moscas que apareciam sem ser convidadas. Sempre nos queixávamos do arroz sem sal, do aipim duro e da carne retorcida. Mas a fome e o preço módico da comida nos rendiam.

De repente, a sirene soou antes do término do almoço, um som prolongado de agonia.

Ao lado do refeitório, botijões de gás explodiram e uma faísca de cigarro provocou o incêndio que se alastrou rápido. Rolos de grossa fumaça sufocavam tudo o que era vivo. Árvores perderam seus ramos.

Um pardal solitário pousado sobre o muro espiava e sobrevivia.

O mundo havia se tornado cinza.

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