Rita Rheingantz em foto de Jorge Almeida

Cinzas de quarta-feira

Rita Rheingantz
Andávamos cabisbaixos, era o último dia de carnaval. Ventos nostálgicos flutuavam em nuvens quimeras e num esforço hercúleo olhávamos para o presente. Minha câmera ocular andara de ré e vagarosamente, mergulhada nas profundezas daqueles pequenos-grandes dias de folia, máscaras e fantasias.
Exaustos fisicamente. Emocionalmente, êxtase e nostalgia em dualidade se confrontavam.
A triste volta à realidade pós-carnavalesca é como um abismo de trezentos e sessenta e cinco dias de espera. Lá, onde a cerveja tem outro gosto, por mais quente que esteja, é degustada como vorazes serpentinas dançantes. Onde quilômetros e quilômetros alcançados dão a sensação de cruzar um semáforo de um lado ao outro. Onde tudo tem mais leveza – exceto os ponteiros do relógio. Esses correm como na Fórmula 1, tendo pressa de chegar não sei bem aonde, num fliperama de emoções e desejos. O maior feriado nacional dispara como num flash e, numa velocidade meteórica acaba, para quem o vive intensamente.
Bebe-se demais e dorme-se de menos. Ondas de alegria e diversão em looping. Dias de fantasia e glória.
Aquela tarde de quarta-feira chegou oca e apinhada de saudosismo. Os ventos mudaram de lugar, fazia frio. Caminhávamos pelo pier à espera do pôr do sol. A temperatura baixara vinte graus. Tudo vestia-se de finitude, até mesmo o dia que chegava ao fim.
Era o despertar de um novo ano

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