Renata Cardoso Vieira em foto de Iara Tonidantel

Azul e Rosa

Renata Cardoso Vieira

Quando meninas vivíamos ouvindo frases que arrepiam até hoje: Maria, senta direito, isso não são modos de uma menina. Maria, coloca um short embaixo desse vestido, assim não aparece a calcinha. Maria, não pode jogar bola, vai se machucar com esse bando de moleques. Maria, cumprimenta as pessoas, não foi essa a educação que a tua mãe te deu! Maria isso, Maria aquilo. Eram tantas regras que eu quase não sei como sobrevivi sem pirar um pouco.

Ou talvez tenha sobrevivido porque pirei um pouco. Um domingo de manhã decidi brincar de carrinho de rolimã na grama, daqueles carrinhos de papelão. Só tinham meninos, mas eu estava decidida, apesar do vestido. Afinal parecia ser tão divertido. E foi! Lembro de o carinho travar no meio da lomba e eu rolar até embaixo e ficar cheia de micuins. Depois disso, minha mente se expandiu e passei a questionar tudo que só meninas ou só meninos podiam fazer. Aprendi a construir pipas, e subir em árvores virou passatempo predileto. O moleque era eu, e estava tudo bem.

Quando a gente cresce, mudam as frases, mas as cobranças seguem as mesmas: meninas não podem ser namoradeiras, meninas não podem ficar até tarde na rua, meninas não podem usar roupas curtas! E os meninos da mesma idade, quanto mais namoradas, melhor; se brigou na escola, mostra que é homem; se aprontou alguma, nada de mais porque meninos são assim, vivem aprontando, faz parte.

Sei que esses comportamentos se repetem ao longo do tempo, reescrevendo a mesma história de machismo e limitação cultural de novo e de novo, fingindo ser preocupação com o bem-estar das crianças e jovens. Mas quando o adolescente namorador transforma-se num homem que não vai assumir o filho, afinal a responsabilidade é da mãe que devia ter se cuidado. Todo mundo aponta o dedo para mãe! E o pai sai ileso, com as outras namoradas a tira colo. A mãe carrega o filho e o fardo de ter que ser responsável, forte e, muitas vezes, solitária.

Quem dera importasse menos os comportamentos estigmatizados de meninos e meninas e mais os valores e a felicidade deles. Quem dera importasse menos a cor da roupa, se azul ou rosa e mais o respeito ao desejo do próximo. Quem dera os pais preocupassem-se menos com a quantidade de namoradas que os filhos têm e mais com o tipo de pai que eles vão se tornar um dia. Quem dera que as adolescentes fossem incentivadas a construir castelos, ou dirigirem empresas ou escalarem o Himalaia, ao invés de serem cobradas em ajudar na casa.

Não é porque sempre foi que deve-se continuar sendo.

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