Jane Maria Ulbrich em foto de Gilberto Perin

Quando um não quer…

Roteiro escrito por Jane Maria Ulbrich

 

CENA 1- INT .  QUARTO DE MOTEL – NOITE

O quarto está na penumbra, janela aberta, iluminado apenas pela luz da lua. Há várias roupas atiradas pelo chão. O homem e a mulher cinquentões, ele nu, ela apenas com calcinha branca. Ambos recostados, um de frente para o outro, relaxados, após o sexo. Cada um segura um cigarro que tragam entre as palavras. Ele, a cada frase inclina mais a cabeça, falando bem junto ao rosto dela.

[ Isabel] _ Este é um momento sempre controverso. Deliciada mas com uma angústia tomando conta de mim.

[ Ele] _ Passa logo Isabel. Já já estaremos juntos de novo. Vamos aproveitar sem pensar nisto, meu amor.

[ Isabel] _ É o que você repete há 22 anos!

[ Ele] _ O prazer de estarmos juntos é o que importa, meu amor.

[ Isabel] _ Mas até repetir é complicado. Dez minutos quando você me busca em casa e outros dez quando você me leva de volta. No intervalo, sua mãe, cada vez mais dependente, cada vez mais irritada, precisando de muito mais cuidados. Um dia inteiro e apenas um tempinho conversando, enquanto você dirige. Estou envelhecendo e cada dia mais sofrida.

[ Ele] _ Ah Isabel!  Relaxa!  Depois deste cigarro, repetimos tudinho para compensar.

[ Isabel] _ Mais difícil ainda as eternas críticas de minha família. Que estou me consumindo. Não sabem como aceito ficar contigo depois de teres casado às pressas com a tua primeira mulher. Maldita gravidez! Esperei dezoito anos para que te separasses dela e ainda estou te esperando porque engravidaste uma segunda garota. Eles estão quase me convencendo de que nunca ficarás comigo, que apenas sou uma cuidadora de tua mãe, sem custo algum para você.

[ Ele] _ Meu amor. Que injustiça! Não sabes como sofro também com esta situação. Um acidente em uma noite de bebedeira e justo quando iríamos viver plenamente nossa relação, fui traído por uma garota maquiavélica.

[ Isabel] _ Mas casaste com ela!

[ Ele] _ Sabes que jamais abandonaria uma criança! Do meu sofrimento por não ter conhecido meu pai. Da minha tristeza por ser ludibriado pela garota. Mas não me restava nada além de casar com ela. Você não imagina o que me dói esta situação. Vem aqui minha gostosinha! Você é a única pessoa que me compreende.

Não podemos viver sem você!

UMA LUZ FOCA O ROSTO DELE, REVELANDO O MOVIMENTO DOS OLHOS QUE ELE FAZ LOGO AO TERMINAR A FRASE.

 

 

Facebook Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima