Tom Saldanha em foto de Gilberto Perin

Prece

Tom Saldanha

Poderia ter sido antes; ou depois.

Seria um vestiário ou um quarto de motel?

Talvez tivesse ganho; talvez perdido. Quem sabe?

A postura era de prece: pedia para ganhar? Agradecia por estar bem?

Recém colocara as ataduras para proteger os punhos – suas ferramentas de trabalho – ou ainda não tivera tempo de retirá-las?

Disputaria um cachê interessante ou acabara de lutar por mais um troféu que se perderia entre tantas outras lembranças?

A imagem do pugilista pensativo, num ângulo que sugeria intimidade, era capaz de inspirar, além de um punhado de dúvidas, outro tanto de invencionices.

E ele? No que pensava?

Será que questionava o que havia feito da vida? O físico em ordem dava espaço para filosofias no estilo “o que estou fazendo aqui”?

Repetia de forma insana todo o ritual que envolvia sua prática profissional. E esta rotina quase não dava chances de discutir a pertinência de ficar eternamente exposto aos riscos que sabia correr.

Por isso às vezes ficava assim, quieto, pensativo, ouvindo-se repetir:

O que estou fazendo aqui? O que minha vida se tornou? Se tantos outros sofreram com sequelas cruéis destas porradas idiotas, por que não parar enquanto é termpo?

Não vale a pena viver nesta corda bamba, no limite da capacidade de apanhar por esporte ou sobrevivência.

Preciso de força extra para decidir a luta mais dura de todas; num jogo de corpo enganar a fera e impedir que a tendência se torne destino.

Acredito que sou capaz de virar o jogo e abandonar esta sandice autodestrutiva.

Aposto em mim.

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