Giuseppe-Reichmuth

Os insistentes

Autor: Gabriel Lesz

Eles ainda caminham por aí. Embora considerados mortos, ainda vivem. Volumosos, arrastando o corpanzil por vias expressas, avenidas, parques, cafés, insistindo em dizer ao público que seu reinado não acabou. Proclamam juras de eternidade: “Todos preferem o antigo, as pessoas confiam mesmo é na tradição, ninguém acredita nessas novidades instáveis”. E lá vão eles, com seus jingles jurássicos.
Canções primevas de lugares já inexistentes, vulcânicos, cobertos de plantas estranhas e coalhados de insetos maiores do que cachorros. “Eram tempos tão melhores!”, cantarolam eles, “tudo dava certo, ninguém era infeliz, os jovens respeitavam os mais velhos, havia paz”. Enquanto isso, ali no canto, o tiranossauro baixa a cabeça e agita os bracinhos, nervoso, torcendo para ninguém se lembrar de suas caçadas sanguinolentas.
“Era melhor quando estávamos no comando!”, brada o iguanodonte, assustando um grupo de garotos skatistas, que reagem atirando latinhas e desaforos na direção do importuno quadrúpede. Longe dali, o diplodoco está na estrada duplicada perto da cidade, lanchando as copas das árvores e interrompendo o trânsito. Mais dores de cabeça para as autoridades, que não sabem a quem delegá-las.
Os incidentes se repetem. As feras ancestrais teimam em impor sua presença a um mundo que não precisa delas. Quando confrontadas, urram: respeitem-nos, estávamos aqui antes de vocês, sabemos como as coisas andam, a Terra é plana, hoje em dia a arte é indecente e diabólica, porque a família, a moral e os bons costumes, e assim prossegue a cantilena.
Seus números minguam a cada dia, e diariamente seu alarido se torna mais estrondoso, suas ações, mais absurdas. Persistem em questionar o óbvio, na ressurreição de causas abandonadas, no apontar para fatos diversos, exceto o mais gritante deles: são dinossauros.
Tentam bloquear a marcha da história com seu imenso peso e nada logram, criando cenas desajeitadas, ridículas. Para cada estegossauro dando carteiraço em um restaurante, a indagar-se os presentes sabem com quem estão falando, cinquenta pessoas reviram os olhos com enfado e se perguntam o que estes seres ainda fazem por aqui.
É improvável o fóssil se convencer do próprio arcaísmo, pois os que mais se obstinam com a existência costumam ser os que já a deixaram. Acabam por ser pedras no caminho alheio.
Para enfrentar tamanha maçada, resta ouvir as palavras do anjo torto, desses que vivem na sombra: vai lá, ser paleontólogo na vida.

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