Soraia Schmidt em foto de Lia Zanini

O gato negro

Soraia Schmidt

A casa era velha, de madeira e mal conservada. Algumas persianas quebradas, outras quase por cair, paredes sem pintura e, surpreendentemente, os vidros intactos. Portas, escadas e tábuas rangiam; a casa inteira estalava como se fosse viva. Ficava no final da rua sem saída, que dava no brejo, onde  sapos coaxavam em coro. Em noites de lua cheia, o reflexo da lua na água produzia um cenário perfeito de casa mal assombrada. Assim pensava Bentinho, vendo a mudança que chegava. Quem ousaria morar naquela casa? Não se viu muito. Alguém desceu do carro preto, coberta por um xale e adentrou junto com as poucas caixas, sumindo na penumbra da casa. Nenhuma janela foi aberta. Nunca ninguém viu a moradora. Mensalmente descarregavam mantimentos, e era só. A vizinha não saia. Os poucos que tentaram contato não tiveram sucesso. A campainha funcionava (tinha um longo som de sino), mas não era atendida Começaram as especulações: seria ela surda? Fugitiva? Bruxa? Louca? Humana?

Uns diziam ter visto longos cabelos cinzas, nariz adunco, olhos de gato, amarelados, e com pupilas pretas horizontais que espreitavam pelas frestas das persianas. Outros, ser apenas uma velha senhora de compridas madeixas brancas, magrinha e arredia em busca de paz. Outros ainda, ter escutado ruídos, sussurros e miados, mas nunca voz humana.

O tempo foi passando e todos foram se acostumando com mais aquela esquisitice do bairro esquecido por todos, até pelos bandidos; por isto era calmo e tranquilo, além de antigo, pobre, sujo e descuidado. A casa e a velha eram apenas algo mais naquela paisagem. E esqueram-se do fato. Menos Bentinho. Menino quieto e observador, gostava de silêncios e de ficar só a olhar o mundo. Criava outro dentro de si. Isso era coisa de alma, dizia a avó.

Á noite, nas de lua cheia, ele percebia. Lá no alto, na mais misteriosa das janelas, a do sótão, iluminado apenas pela pálida luz alaranjada que vinha do interior da casa, estava um enorme gato negro. Via pouco mais que sua silhueta: cara peluda, olhos amarelos afinados e aguçados, fuço achatado e barbatanas espetadas. Não se movia. Ficava  inerte por breves instantes e sumia, tão súbito e sorrateiramente, como aparecia.

Bentinho lembra que no enterro da velhinha, o gato apareceu e desapareceu pulando sobre o caixão. Mas só ele viu.

Coisa de alma, decerto.

Alma de gato. Gato negro.

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