Marshall Arisman por Bernadete Saidelles

Apontando lapsos do passado

Bernadete Saidelles

Queridos Amigos,

Quando adolescente eu adorava escrever cartas e depois ficar dias e dias esperando um retorno e, quanta alegria ao receber do correio uma resposta de amigos, numa época que nem havia o que contar. Tudo era uma mesmice, mas de alguma forma nunca me faltou assunto. Vai ver que era treino para quem sabe um dia virar escritora.

Certos sonhos a gente vai deixando para depois. Curioso é que alguns deles não envelhecem, mas outros terminam por prescrever. Uma amiga de infância que encontrei recentemente, depois de tantos anos sem contato, de quem era inseparável, lembrou que era eu quem escrevia suas cartas de amor. Então pesquei na lembrança que não eram poucas. Eu apenas perguntava o que ela queria dizer e descia o verbo. Eram longas. Eu, tão tímida e boca-aberta para assuntos da paixão, me saía bem, porque é fácil escrever e dizer coisas de amor com a boca ou a assinatura dos outros.

Eu e as cartas. Quantas bobagens fiz por causa delas… Até uma carta anônima escrevi, mas com três ou quatro testemunhas observando, numa cidade do interior. Imagina? A autoria chegou às “mãos” do destinatário antes da carta (rsrs).

Terminei relacionamentos no auge da minha paixão, por carta, num ato impulsivo e louco que não encontro explicação. Dessas não recebi resposta. Vejo que escrevê-las era como derramar minhas emoções no papel, porque já não cabiam em mim. Mas hoje vejo que este transbordamento não precisaria ter levado selo e chegado ao destinatário. Mudei vidas por causa das cartas, principalmente a minha. Fico feliz que as redes sociais não existissem naquela época, pois eu seria um dinossauro em cidades de Smurfs.

Passei a vida domando a impulsividade, algemando, colocando correntes, cadeados e a trancando na solitária. Hoje ela está domesticada, mas é sempre bom não baixar a guarda. Fui pedida em casamento não faz tanto tempo assim pelo homem dos meus sonhos. Impulsivamente escrevi uma carta, depois de tanto relutar quanto a essa possibilidade (matrimônio), aceitando. Contive a impulsividade, até porque a enviaria por e-mail, mas no formato antigo por ser ele meu contemporâneo e tão parecido comigo no jeito de ser e viver (amante das cartas à moda antiga). Deixei para enviar a tal “carta” quarenta e oito horas depois, para não correr o risco de me arrepender. No outro dia ele terminou o relacionamento já que eu não havia me pronunciado. Suspirei aliviada.

Eu me pergunto: Como pode um cachorro com um lápis na boca me arrancar tantas confidências?

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