Maria Amélia Mano em foto de Carlos Eduardo Vaz

Irmãs

Maria Amélia Mano

 

Lua cheia em solstício de verão, Erta Ale, a Montanha Fumegante, a Porta do Inferno, explode lançando lava e enxofre. O vulcão está bem na junta tríplice de Afar, zona de placas tectônicas. Um dia, ele romperá terra formando o Vale da Grande Fenda e um novo oceano. A África será dividida. Enquanto isso duas mulheres amam, se entregam e geram início de vida. Duas meninas.

 

Chuva de meteoros, Alice e Amanisha nascem pequeninas e frágeis. Alice toma vitaminas e vacinas. Amanisha fica sempre junto da mãe atada pela capulana. A casa de Alice é de tijolo e cimento. A de Amanisha é de barro e bambu. A mãe de Alice estuda. A de Amanisha não sabe ler, tange cabras nos campos etíopes. O pai de Alice virou mochileiro. O de Amanisha, andarilho.

 

As meninas crescem se sentindo sós e gostando de cultivar violetas e poesia, beber caldo de cana, café, chá de ervas. Se deslumbram com mistérios da terra. Sonham, à noite, com um tempo em que continentes eram unidos. Sentem que há sempre alguém do lado de lá que também é de cá. Alguém que brinca e dança ciranda. Alguém que chama, irmana e emana.

 

Estrela Matutina: Vênus entre Terra e Sol, mais perto, brilhante. Amanisha e Alice sangram. Erta Ale cospe fogo. Sismos são percebidos no Oceano Índico. Ventos em todos os lados e cantos do mundo. Redemoinho de violetas arrancadas. Pétala pousa no chão, uma para cada uma. Amanisha e Alice intuem, choram, juntas e distantes, de uma solidão imensa e inexplicável.

 

Enquanto vulcão ameaça separar mundos em Vale da Grande Fenda, Alice e Amanisha se encontram todas as noites, em sonhos que nem sempre lembram. As irmãs de infinitos e firmamentos dividem vidas, amores, dores, lidas, perdas, dias. Pariram juntas filhas, em eclipse lunar, Lua de Sangue. E partiram juntas como chegaram. Céu de lua cheia em solstício de verão.

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