Maria Amélia Mano em foto de Anibal Elias Carneiro

Santa Fé

Maria Amélia Mano

 

Eu sou Bibiana e nunca me achei merecedora, digna.

Eu, expectativa em pedido que faço. Trabalho onde, parece, passei vida inteira intensa, imensa, imersa em senha, código de barra, operação, enter e F5, cafeteria, carrinhos, sacolas, sabonetes, travesseiros da NASA em promoção, fila preferencial e pra até 10 itens, mendigo e seus cães, na loucura, na entrada, esperando trocos e restos. Eu, também, entre trocos e restos.

Eu, relógio ponto infinito, registrar, empacotar, máquina de pesar quilo, querer e querela. Todo dia, todo tempo, as mesmas perguntas: encontrou tudo que desejava? Cartão do supermercado? CPF na nota? Estacionamento? Por isso e pela dor nas costas e mãos. Pelo cansaço. Pelas grosserias. Por tudo que já dei de mim é que peço. Às vezes penso que nem mereço. Às vezes.

Eu sou Bibiana e essa minha caminhada invisível em espera.

Eu, mãe, criando filha vendendo trufa e rifa, fazendo faxina. Eu, nome de heroína, esperança de mãe solitária, velhinha mas cheia de fé. Igual vó. Igual eu. Gerações de mulheres de sorrisos ternos vistos da janela da cozinha que conta nossas histórias. Essa que dá pra quintal de jambeiros roxos. Sorrisos iguais ao da minha filha que espera outra menina sem pai. Serena sina.

Eu, com elas, memória e presença, sou pequenina e grande, pés firmes e soltos, terra e ar, alegria imensa. Sou eu de verdade, bonita, feliz, digna e merecedora. Como bisa que ainda junta casca de ovo pra fortificar canteiros. Ainda prepara banho de sete ervas e xaropes. Ainda acende vela às seis horas pra Santa. Quero aproveitar tempo, vento, vidas que restam. A neta que virá.

 

Eu sou Bibiana, agora, certeza que mereço, sim, a folga mensal de domingo que peço. Por mim e por elas, todas elas. Mereço, merecemos.

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