(M)água

A bagagem mais pesada e volumosa que levamos quando partimos em viagem é formada por referências. Grande parte dela consiste de memórias do nosso lar, da nossa cidade, do estado e país. Mais tarde, quando muitos carimbos colorem o passaporte, elas são acrescidas de paisagens apenas visitadas. E, como em quase todo o mundo, povoados humanos se concentram nas margens de oceanos, lagos, rios e canais. Nossa água encharca a lembrança.

Porto Alegre, como denuncia o nome, nasceu às margens do imenso Guaíba. Em sua paisagem original, sobejavam também córregos e riachos desenhando o caminho das águas por entre elevações, baixadas e várzeas. Nos últimos duzentos anos, nossa urbanização deu pouca ou nenhuma importância para nosso meio hídrico. Nascentes, córregos e riachos foram quase todos canalizados para o subterrâneo, e deles lembramos somente quando transbordam se o volume de chuva é maior – momento em que recordamos onde a natureza reservava espaço aos charcos.

A mais honrosa exceção ao acobertamento é o Arroio Dilúvio, ainda que seu caminho original tenha sido alterado. Nele, a cor, a sujeira e o cheiro falam por toda água que nos habita, denunciando o desrespeito atroz. Pior, apenas a certeza de que ano após ano o quadro só se agrava – quando a lógica da informação deveria fazer isso correr na direção contrária. Sobre o Guaíba, além do tradicional avanço em forma de aterros, fica quase impossível acreditar que meu pai, em criança, banhava-se não apenas nas aprazíveis praias de Ipanema, Florida ou outras ao sul, e sim no canal que leva ao porto, na altura do bairro Navegantes. Ou seja, havia poluição, claro, mas não severa.

É este enorme peso na minha consciência que levo para lugares onde as águas que serpenteiam as cidades são aprazíveis: saber que minha poderia ser igual. Ao menos parecida… Se levar muitos anos para fazermos as pazes com a água eu passarei pela vida sem ver um quadro de harmonia quando retornar do exterior. Restará a inveja como souvenir. Menos mal que decepção e mágoa, até quando se fazem bem pesadas, não são cobradas nos aeroportos. Ainda…

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