Magistério do Tempo

Magistério do tempo

Autora: Letícia Prata

Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera
Tudo que vem é grato

Fernando Pessoa

Nasci sob o signo da dualidade de fevereiro e junho, transmutado entre tempos de sol e chuva; mar e fogueira, Carnaval e São João. Desconhecia o frio na pele, o ranger dos dentes, casacos pesados, cobertores de lã. Meu frio era chuvoso, não doía na alma, nem causava estranhamento. Era feliz no meu dessaber.

Aos doze, por motivos alheios à minha vontade, fui introduzida às quatro estações. Aterrissei em terras distantes. O branco da neve contrastava com os restos de sal que trazia no corpo, chinelos de couro e pena na orelha. Assim, me apresentei ao inverno da América do Norte. Não queria maiores intimidades. Deixei claro, desde o início, as nossas diferenças. Demarquei território, não fiz cara de muitos amigos.

Veio a primavera, e com ela, o desabrochar das flores. A visita dos coelhos e esquilos em busca do alimento. O gelo inicial foi dando margem a um outro olhar sobre o transcurso do tempo. Passei a buscar semelhanças, me abri aos poucos, deixei-­me povoar por outros signos.

Veio o outono. Um tapete dourado desabrochou-­se maduro na minha frente. Quis pisar naquelas folhas caídas, secas, o tilintar dos meus pés pediram passagem, reconhecimento, integração. Mas era hora de voltar. E, aos quinze, regressei à dualidade experimentada. Não era a mesma.

Aos vinte e cinco, migrei. Dessa vez, por vontade própria. Ao invés do Norte, o Sul. Era abril, fui recepcionada pela neve. Senti o desconforto do frio temperado nos trópicos. Novamente, fui tomada pelo estranhamento. Sentia uma dor, não suportava os dias úmidos, molhados, quis desistir, como cachorro perdido, tentei farejar o caminho de casa.

Mas veio o amor, a música, os amigos. Aqueci a alma, estendi o poncho, fiz minha travessia. Refiz o ciclo migratório. Apaziguei­-me com as estações.

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