Joyce Kitchell por Rubem Penz

Chá preto com limão

Rubem Penz

Mais de cinco, bem menos de dez. Sei o intervalo da minha idade por morar na “casa de baixo” da Av. São Pedro durante o período da lembrança. Qual lembrança? Na “casa de cima”, a Vó Morena recebia minhas tias para o chá. Tias, não: tias-avós. Tias Silma, Selma e Celi, sempre. Tia Paula aparecia? Talvez, mas com menos frequência. Tia Joia também – e essa não era tia de sangue, mas era tia igual. Comadres batiam ponto e, volta e meia, a mãe subia para participar. Nem sempre tinha tempo: três crianças pequenas e um bebê dão certo trabalho… E eu? Ah, fazia questão de dar uma passada.

Havia muitas vantagens em ganhar os degraus, cruzar a sala de estar e chegar ao lado da cozinha. Elas todas estavam à mesa. Chá preto com limão (sabor que é só desta memória), cuca, sanduíches, bolinhos, doces. Bolacha d’água com manteiga, rosquinha de coco, goiabada. Nem sempre tudo, às vezes outras variedades também apetitosas. E, como desde pequeno fui bem dado, curtia os beijos e abraços – e ofertava para elas a reciprocidade que nem toda criança pequena dá aos mais velhos. E adorava os – imerecidos? – elogios. Até quando não eram exatamente para mim: “Como são educadinhos os filhos da Isolde…”. Eis uma verdade.

Também data deste meio século de distância a preferência por não adoçar as coisas. As tias ficavam estupefatas em eu recusar açúcar para o chá, além de carregar no limão. Isso não haveria de ser normal, nem mesmo para um filho da Isolde. E o sabor amadeirado do Chá da Índia (assim era referido), combinado com o azedo de limão, fazia-me sentir mais velho, maduro. Eu, o mais miúdo de todos, com delírios de grandeza (podem rir).

Mas graça, graça mesmo, é o dar-se conta poderoso de que a vó Morena e as tias-avós à mesa não tinham muito mais idade do que eu tenho hoje, quando não menos. Foi só fazer as contas para constatar. Elas eram tão velhas! Serei eu, também? Questão impossível de ser respondida – ainda que me intrigue pensar o que se passa pela cabeça de uma criança de cinco ou seis anos que olhe para mim com os amigos.

Por isso evito tomar chá em público. Tomo cerveja.

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