Joyce Kitchell por Regina Lydia Rodrigues Jaeger

Casa de vó

Regina Lydia Rodrigues Jaeger

Conforme ficamos mais velhos a nostalgia faz emergir nossas lembranças mais caras em forma de flashes. Às vezes elas chegam incompletas, mas conversando com alguém que também vivenciou o momento, o quebra-cabeça toma forma. As imagens, os cheiros, os sabores e as canções têm este poder evocativo que nos transportam a algum lugar do passado. Tenho muitas lembranças de infância, sendo uma delas mais constante e vivaz, com detalhes sensoriais que a memória preservou intactos: a casa da minha vó Doca. Seu nome era Lydia, mas a chamavam Lydioca até se tornar Doca. Por isso me chamo Regina Lydia.

Sua casa tinha um cheiro especial de cravo, canela e calda de doce. Seus tachos de cobre, sempre fumegantes com doces de abóbora, cidra ou figo. Ah, e a marmelada e a figada, nunca mais comi igual! A sopa de trigo, a canjica com leite e goiabada…

Junto a ela na cozinha, ficava a sua cocota e as duas conversavam alegremente. Sim, a cocota dava risada, assoviava, cantava e dançava. Encantava-me aquela cena. Minha avó nasceu em Lavras do Sul e depois de casada morou em Bagé onde educou seus quatorze filhos. Depois de mais velha e viúva, se mudou para Porto Alegre onde já viviam a maioria das filhas, mas preservou seus hábitos interioranos. Nesta época eu a visitava todos os dias junto com minha mãe e, chegando lá, sempre tinha uma reunião de família naquele ambiente aconchegante. O que mais gostava era participar das conversas e com tantas tias juntas o silêncio não se fazia nunca. Falavam e gesticulavam com entusiasmo. Eu as admirava, pelo companheirismo e solidariedade, tipo uma por todas, todas por uma. Por este motivo sempre desejei ter muitas irmãs, mas o destino me fez filha única com dois irmãos.

O chá da tarde era sagrado. À espera das filhas, a mesa sempre bem posta com a toalha de broderie bordada e engomada, a louça Limoges com estampa floral em tons de rosa e azul. Tudo emoldurado pelo papel de parede com flores de jasmim sobre o rosa antigo. E para completar aquela cena gastronômica, sobre a mesa nos aguardavam as delícias caseiras: pães, bolo de fubá, biscoitos, manteiga e geleias. Quando o Cuco do relógio abria a portinha de madeira e anunciava as cinco horas, estava aberta a comilança. Bom proveito!

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