John Jude Palencar por Bernadete Saidelles

Insaciáveis Torturas

Bernadete Saidelles

Uma tela intrigante na parede da inquietação retira o véu da minha pressa, para que eu possa intuir qual o recado que o autor pretende. Um ser humano surpreendente numa cena de tortura incomum. A julgar pelo pescoço, é homem. Está enfaixado com os braços contidos com ombros de fora. Negro. Magro. Há uma argola de metal feito colar que o prende à parede. A cabeça circulada por placa metálica que mantém um cachimbo fumegando próximo à boca, de maneira a não poder tocá-lo, apenas sentindo o cheiro do fumo e a fumaça entrando pelo nariz, embriagando os sentidos. Os cabelos de quem teve a cabeça raspada à força. Pelo deleite dos olhos ante à proximidade do bocal do objeto, há um delírio sôfrego de tocar os lábios para tragar a fumaça, num desespero de pássaro que se lança ao primeiro voo.

Uma figura humana representando uma legião de excluídos: negro, talvez gay, pobre, viciado… Um fiapo de vida pulsando num corpo sem escolhas.

Eu me pergunto como se sente o torturador numa hora dessas? poderoso? alegre? Qual o próximo passo? Alguém que subjuga o outro numa condição extrema de submissão e sofrimento, será que pode ser chamado de humano? E a resposta é sim. Apenas os humanos são capazes de torturas psicológicas. Os animais apenas se defendem ou atacam quando precisam saciar a fome (os gatos apenas se divertem com a presa).

Um torturador tem sede de quê? E se torturar até a morte, o que acontece depois? O brinquedo se desmancha? Precisa procurar outro?

Os conceitos de Humanidade não estão impregnados no DNA dos humanos. Jamais conseguirei entender que sangue é esse que corre nas veias de certas pessoas, incapazes de ter empatia, de se emocionar, de dar um passo na direção de tornar a vida de alguém mais digna, leve e tranquila.

Sinceramente não sei o que o autor da imagem quis passar. Talvez seja melhor avaliar o que me prende. De quais vícios do ser ainda não me libertei? Ando cortando as correntes dos medos, porque a vida pode ser apenas uma última brisa que fez a curva rumo ao nunca mais.

 

 

 

 

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