John Jude Palencar por Ananyr Porto Fajardo

Grilhõe$

Ananyr Porto Fajardo

Vivia preso a desejos que não alcançava. Ou melhor, quando os alcançava, queria mais e diferente, nada de luxo ou luxúria.

Não lhe bastavam balinhas no Dia das Crianças nem bola de plástico no Natal; o que esperava mesmo era um carro de bombeiros com sirene e o uniforme oficial do seu time do coração. No aniversário, ganhava uma camiseta do 1,99 e um bolo com mais glacê do que massa, mas a bicicleta, nada. A coleção de Transformers foi dada por um coleguinha que disse: Pode ficar com eles, são falsos mesmo.

Beijos e abraços, só da profe no primeiro dia de aula, depois nunca mais. Na verdade, beijo, beijo, só lá pelos 10, 11 anos e não gostou.

Engaiolado em um apartamento com pai, mãe e dois irmãos, a quem deixava o que não lhe servia mais, sonhava com um guarda-roupa e uma cama para chamar de seus. Dos pais, herdou a humildade, e cultivou em segredo um gosto próprio pelo melhor, alimentado pelas redes sociais. Invejava os colegas com tênis de marca e as meninas com celular da última versão.

Tudo que conseguiu foi por esforço próprio, pedindo aqui e ali. Fazia bicos, servicinhos para uns e outros, algumas vezes por baixo dos panos. Nada muito legal, mas necessário. Ganhava uns trocos, caderno usado, lápis velho e lanche dividido. Cursou o ensino técnico, mas quando terminou queria trabalhar em outro ramo, talvez como vendedor de carros.

Era um tanto retraído e parecia muito sério. No Facebook, era conhecido como MC Cadão, graças ao fotoshop que disfarçava sua esqualidez. Montou seu quarto-e-sala à prestação e viveu um romance a cada filho. Porém, continuava querendo mais e muito: aparelho dentário, mas pagar o meio salário de mensalidade não cabia no orçamento; passar o feriadão em Floripa, mas sempre chovia; ser motoboy, mas nunca era sorteado no consórcio.

Pensando agora, acho que apostava pouco para quem tinha sonhos tão grandiosos. No fim das contas, se resignou e hoje vive da saudade daquilo que não teve.

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