Jim Harris por Soraia Schmidt

Juanito

Soraia Schmidt

Era um menino miúdo de grandes olhos negros. Amanheceu na varanda da casa grande. Dentro de um cesto forrado com travesseiro, panos rasgados e limpos, pendurado no alto, entre as samambaias. Sob a algazarra dos cachorros, viam-se perninhas que se agitavam em alvoroço para fora dos panos e do cesto. Nem a poeira na estrada revelava o traçado de sua chegada. Encoberto de mistérios, foi assim seu destino, marcado na estância da vó Mafalda. Lembro que era muito pequeno e muito sorria com seus grandes olhos. Menino de sorte. Acertado ficou, que Mariadoce lhe cuidaria. Afinal, sempre fora mãezona de todos por ali. E de mão cheia. Cozinhava, limpava, nos banhava e acolhia a qualquer esfolado ou queda, que não eram poucos. Pai? Pra quê?

Passávamos o verão, de dezembro a fevereiro, no alto da coxilha Santa Sé, fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, na estância. Os pais vinham para o Natal e após o ano novo, ficávamos os sete primos, aos cuidados da vó, de Mariadoce e dos ventos do pampa gaúcho.

Na varanda da casa grande passávamos as noites sob as estrelas a ouvir histórias. Iluminados apenas pelo brilho do céu e dos olhos, já que o vento ventoso cumpria sempre seu papel de, num sussurro do tempo, apagar as velas para aguçar ainda mais nossos sentidos. Era um silêncio só. Ouvia-se a voz da vó Mafalda, entrecortada pelos sons noturnos da estância: o coaxar dos sapos, o cantar dos grilos, das corujas e muitos outros que eu não fazia ideia a quem pertenciam ou de onde vinham. Se dos vivos ou dos mortos. Temperavam sono, imaginação e sonhos.

Foram muitos os anos assim passados. Juanito sempre junto. Era o único que não crescia. Seu corpo insistia na miudeza, mas seus ossos e músculos tornaram-se fortes e proeminentes. Esculpidos pelo trabalho na estância e, ao que a vó explicava, por força da bravura. Pois, que vindo da noite, não pegara o medo. O escuro que penetra pra dentro traz o mistério que faz casa na gente.

Muitos ventos e tempestades se passaram e os verões foram sendo mais solitários na casa. Restaram a vó Mafalda, Juanito, as noites, o tempo, o silêncio, as histórias vividas e inventadas.

Por ocasião do inventário, retornei. Sentei-me na varanda. Ouvi o coaxar dos sapos, o silêncio das estrelas e, ao olhar o quadro pendurado sob a parede das samambaias, chorei. Juanito pintara a vó Mafalda de óculos, sob a magia do corpo de um sapo gigante que o levava a desbravar o mundo. Com alegria.

Assim, também eu.

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