Jim Harris por Rubem Penz

Seguuuura, peão!

RubemPenz

Quando adormeceu na madrugada do dia primeiro de janeiro do saltante ano, mais ou menos ébrio de espumante seco (secaram duas garrafas, uma aberta ao jantar e outra à meia-noite), nem lembrava direito quais pedidos fizera. Desimportante: as promessas e os projetos que ocupam nossos pensamentos nas passagens de ano costumam ser protocolares, apenas mais do mesmo – zelar e pedir por amor, saúde, prosperidade. As mesmas palavras trocadas nos telefonemas aos parentes e amigos próximos-distantes, o beijo na boca, os passos de dança, ela vestindo branco e o cabelo preso num lindo penteado.

Pela manhã, retido na memória, um sonho estranho. Atravessava um longo banhado na garupa de uma perereca, ela saltando longe a cada pulo. Hábil como um ginete, tinha uma das mãos estendida para o alto e, firme na outra, uma rédea atada naquilo que seria o pescoço do batráquio, se pescoço o bicho tivesse. Descolava-se da montaria e nela pousava outra vez, como nos rodeios, enquanto a perereca voava driblando folhas, galhos e pedras no caminho. Água para todo lado, urgência, aflição.

É muito comum não ligar para sonhos premonitórios. Eles jamais chegam explicadinhos, ou guiados por um narrador em off dando conta do que a cena, em si, deixa passar. Não há debates pós sonhos, a não ser que a pessoa frequente um analista freudiano “de carteirinha plastificada, com assinatura da secretária, foto e brasão”, como poderia dizer o Analista de Bagé. E nem adiantaria: fora dos casos graves, o período de final de ano merece férias do divã, com direito aos breves excessos inerentes ao momento.

E tudo isso teria ficado para trás fosse outro ano, e não este 2020 dos infernos. Enquanto abre a lista de compras de dezembro, já pensando em incluir o espumante para escapar da correria de última hora, a perereca volta à sua lembrança. Isso! O Universo tentou me alertar, pensa ele, este seria um ano de pular feito sapo para aguentar o tirão. Ano de cobra dar o bote, coruja vir no rasante, mosca fugir para longe da nossa língua. Ano em que girino lento morre na boca do peixe. Ano de ficar no lombo da perereca mesmo que ela salte mais que touro de quem sovaram as bolas.

Fora avisado, e não dera atenção. Este 2020 não era ano de ir para o brejo. O ano, este 2020, ele seria o próprio brejo.

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