Jim Harris por Regina Lydia

Engolindo sapos

Regina Lydia Rodrigues Jaeger

Não se vê mais tantos sapos como antigamente. Quando eu era criança, na praia ou no campo, apareciam muitos na varanda de casa, dos grandes, rugosos, assustadores à primeira vista, mas inofensivos. Benéficos, por comerem os insetos, equilibrando o ecossistema. Gostava deles. A sinfonia noturna do coaxar era relaxante para mim.

Minha mãe nos alertava de que existiam alguns que soltavam o veneno pela glândula logo atrás dos olhos, e que não podíamos apertar ali. Sabedoria. Mas isso não nos impedia de pegá-los, com técnica, erguendo-os por baixo das pernas da frente, com o polegar e o dedo médio. Claro que por um bom motivo, na maioria das vezes para salvá-los de algum predador, gato ou cachorro. Sempre fui defensora dos animais. Às vezes fazíamos corrida de sapos, geralmente nos dias chuvosos, quando apareciam em mais quantidade. Cada um pegava o seu e os colocávamos lado a lado. A largada era dada soltando os bichinhos no chão, e lá saiam aos pulos. Alguns paravam no meio do caminho; outros se desviavam, mas nos divertíamos com eles. Com todo o carinho e cuidado.

Dia desses salvei um lá na granja. Eu estava no tanque, lavando uns espetos e comecei a ouvir umas batidas na tampa plástica do ralo. Quando a torneira fica muito tempo ligada, o reservatório se enche d’água. Fiquei com medo, pois outra vez aconteceu de saltar uma cobra dali. Mas as batidas estavam insistentes, parecendo um pedido de socorro. Se fosse a cobra, já teria levantado a tampa ou saído pelo orifício central. Atendi aos apelos. Peguei um dos espetos e abri a tampa me afastando rapidamente. Eis que saltou um enorme sapo rugoso, marrom, igual aos dos velhos tempos. E lá se foi ele pulando rumo a liberdade. Fiquei feliz: salvei o bicho.

Isto posto, lembrei-me da expressão popular engolir sapos, que me intrigava na infância. Quando ouvia alguém comentar – tive que engolir muito sapo para chegar aonde cheguei – aquilo me fazia imaginar a cena literalmente. Quando adulta, segui repetindo esta expressão assimilada pela linguagem familiar. Até que resolvi saber a origem da mesma – está na Bíblia – foi quando houve uma praga no Egito, uma invasão de sapos por todo o território. Os anfíbios entravam nas casas, inclusive nas cozinhas, subindo nas panelas, nos pratos… Daí surgiu a expressão, engolir sapos, ou seja, suportar situações desagradáveis sem qualquer manifestação. Ufa! E isto não é nada fácil!

Ainda hoje, nestes tempos de despautérios, mais do que nunca, sigo engolindo sapos. Quem não?

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