Jefferson Escobar em foto de Carlos Eduardo Vaz

Ypê

Jefferson José Rodrigues Escobar

“Vêde o pé de ipê.

Apenasmente Flore,

Revolucionariamente

Apenso ao pé da serra”

Os três estão sentados no banco, envolvidos em seus pensamentos. Décio tira o maço de cigarro e o isqueiro do bolso. Ana o olha de maneira suficiente para que ele entenda.  Acabara de enterrar uma amiga, há alguns anos, ela enterrou o marido e o filho e não tem condições de perder outra parte de si. Em um mesmo movimento guarda os apetrechos de volta no bolso.

Eram amigos da faculdade. Todos de fora da cidade, que se acolheram mais que família. Completamente diferentes. Décio, muito prático e com pensamento extremamente organizado. Prestava atenção nas aulas e, como mágica, sabia todo o conteúdo e, melhor, conseguia explicar para os outros. Ana, a séria, aplicada em tudo, sempre com maestria. Juliana, a passional, trocou de especialidade em todos os estágios que passou, apaixonou-se por todos os professores, via o lado lindo de tudo. A amiga, a revolucionária, desde o início do curso envolvida em causas sociais. Os outros, depois ela. Sempre disposta a ajudar e se envolver em programas humanitários.

Estavam ali para organizar a vida da amiga morta. Deveriam discutir, mas tudo estava tacitamente decidido. A clínica popular e as doações, responsabilidade do Décio. Assim como a manutenção das crianças. A princesa, filha mais velha, ficaria com a dinda Juliana, que tinha uma menina da mesma idade e a encheria de sonhos e fantasias. Os gêmeos ficariam com Ana. Afinal, Décio, uma semana após ela perder sua família, não lhe entregou um de seus filhos que tivera com uma aluna que, no momento, o que menos precisava era de uma criança no meio do mestrado? Não tivera tempo para luto.

Eles eram assim. Um precisava de ajuda? Mudavam-se para as casas e organizavam a vida do amigo necessitado. Assim foi no citado luto de Ana. Nas diversas vezes que Juliana perdeu a paixão da vida. Nas diversas paternidades indesejadas do Décio e na dramática separação e traição da amiga.

Os familiares, os cônjuges e os outros amigos já sabiam disso e não conseguiam interferir nessa forte ligação. Quando estavam juntos voltavam no tempo e eram jovens estudantes varando as noites em estudos, conversas e festas. Cada um tinha um toque no celular, o da amiga era Ypê do Belchior. E o dos outros? Falemos depois.

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