Jane Ulbrich em foto de Anelise Barra Ferreira

A sucessora

Jane Maria Ulbrich

Duas. Criadas como dois preciosos palácios similares, espelhados em águas tranquilas, fruto da última gestação da rainha — a única que vingara. Vidas planejadas a propiciar primorosa educação e cultura. A mais rebelde em tudo era atendida após a mais velha, nascida dez minutos antes, princesa sucessora do reino.

Já meninas, quando a rebelde aprontava alguma peraltice, era aconselhada a se espelhar na irmã, cordata, tranquila, estudiosa, cumpridora dos protocolos. Nestas ocasiões a rebelde sempre percebia um risinho debochado da irmã.

O tempo foi acentuando as diferenças e as demonstrações de superioridade absoluta e o ódio brotando perversas raízes. A rebelde, insatisfeita com a situação, via-se diminuída e  preterida nas demonstrações afetivas recebidas pela futura rainha.  Era constantemente advertida por conduta não condizente, tivesse ou não culpa do ocorrido. Na adolescência tinha as mais audaciosas atitudes, agindo de forma cada vez mais cruel e dissimulada. Esperem, pensava, breve, muito breve faremos dezoito anos e a irmã princesinha assumirá suas funções de sucessora, sendo treinada para tal.

Em uma destas terríveis manhãs cinzentas, não conseguiam localizar a jovem rebelde. Procurada em todo o palácio, sem sucesso. Só a encontraram em meio ao bosque, desfalecida na relva, ao lado do seu cavalo, que pastava distraidamente, sem lhe dar muita atenção. Crânio amassado, poça de sangue no chão e também em um alto galho, indicavam a batida frontal certeira.

Lágrimas e susto da família real que, no íntimo, agradeciam ao pai celeste por ter preservado a futura rainha. Passados os funerais, a rainha-mãe, ao dar um beijo de boa noite em sua princesa, correu ao encontro do marido angustiada, dizendo ter alguma coisa errada com a jovem. Ao que o rei respondeu — sossegue querida. Certamente há, ela acaba de perder sua irmã.

Em seus aposentos, a jovem princesa satisfeita, pensava com certa preocupação, no momento de pavor percebido no olhar aflito da mãe.

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