Iara Tonidantel em foto de Marcelo Leal

Decisão

Iara Tonidandel

– E como você decidiu? Foi rápido?

– Não. Precisei caminhar muitas vezes olhando o mar e o horizonte.

Decisões requerem reflexão. Decidir qual o sorvete, o filme, a roupa adequada à uma situação, a marca do pirulito, se vai caminhar pela manhã ou à tarde – estas são peixe pequeno. Há outras questões que, em uma vida, podem não ocupar mais que os dedos de uma mão. A estas precisamos dedicar algum tempo para pe(n)sar. O que faz algo ter sentido. O que faz mantermos relações com outras pessoas.

– Buscando respostas?

– Fazendo uma única pergunta: o que faz a gente se sentir vivo.

– E encontrou explicação?

– Não sei, mas refleti sobre o que faz florescer este sentimento: estar vivo.

– E?

– Foram mais de dois anos de reflexão. Pensamentos repetitivos, muitas vezes.

A importância de receber um abraço apertado. Alguém para estragar o sono, que sente na tua cadeira, que te obrigue a se importar, que diversifique os teus dias. Ser machucado intensamente, ser amado profundamente. Alguém que te apresente o inferno, que te faça parar sem aviso, que precise muito, ou não, de você. Que entenda seus medos, que admire suas fantasias. Que não valorize em demasia seus humores, que feche a porta, mas passe a chave pela soleira dela. Alguém que debata ideias, que faça você pensar sobre suas posições, compartilhe muito ou pouco com você, que te reconheça em demasia. Que saiba escutar. Alguém que faça você rir. Que deixe você confuso sobre o que é melhor: fazer sexo ou conversar.

Alguém que faça você entender que estará ali. Assustado por estar vivo. Igual a você. Te ajudando a sobreviver.

– E decidiu?

– Sim. Decidir sempre é um ato de esperança. Atravessar fronteiras interiores.

– Foi a melhor opção?

– Quando decidimos, as alternativas não vividas são meras prospecções. Não há como saber.

– Verdade.

– Exato! Durante as minhas caminhadas à beira mar, enquanto contemplava a linha que se perde de vista ao fundo do oceano, pensei sobre uma das poucas coisas que a humanidade ainda tem certeza e de que é uma verdade.

A Terra é redonda.

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