Iara Tonidantel em foto de Gutemberg Ostemberg

OFICINA DE CRÔNICAS – SANTA SEDE

Antirreflexo

Iara Tonidandel

Mesa de bar. Conversas adentram as histórias de vida.

– E tu, Iara? É reflexo de que?

Reflexo. Consequência. Resultante de. E outros tantos sinônimos.

Ana é filha de pai depressivo. De vez em quando, sofre de crise de pânico.

Roberto é filho de pai e mãe desconhecidos. Adotado. Já passou por quatro casamentos malsucedidos. Não teve filhos.

Sérgio não sabe quem é o seu pai. Conquistou uma família tipo propaganda de margarina.

Alfredo vem de uma família de alcóolatras. Desde a adolescência só bebe água.

Vera é de uma família de trabalhadores. Graduada e autônoma. Se declara normal. Vá saber o que significa normal para ela.

Paulo teve seu pai desaparecido no período da ditadura. Professor de filosofia, solteiro convicto.

Maria é descendente de família classe A. Econômica. Seu avô foi preso por ser laranja de uma seguradora falcatrua. Deixou de assinar o sobrenome dele e virou ativista de esquerda.

Reflexo.

Enquanto as falas acontecem, o pensamento voa.

Nosso viver vem carregado das heranças familiares. Cada um tem uma forma de tratar suas moedas, sejam elas de ouro ou de latão. Se há muita luz refletindo esse dote, ele tende a ser a referência a seguir ou desconstruir. Se houver pouca incidência luminosa, o referencial poderá estar presente, mas, provavelmente, com menos interferência na nossa caminhada. Dosar a quantidade e qualidade dessa luz nos faz, muitas vezes, buscar algum tipo de auxílio, pois não damos conta sozinhos de realizar essa importante calibragem. O risco é tratar os ditos reflexos com dissonância cognitiva: saber que podem provocar coisas não muito boas, mas acreditar que somente para os outros.

– Iara! Tua vez.

– Eu? Acredito que sou consequência do autoritarismo de meu pai e da submissão de minha mãe. Dizem que sou iluminada, um espírito livre.

Sempre que ouço a palavra iluminada, a imagem daquele ator famoso empunhando um machado é recorrente. E junto, vem a teoria de que para nosso autoconhecimento e resolução de alguns traumas, precisamos, em um determinado momento da nossa breve existência, “matar” a figura paterna e/ou materna. No meu caso, saí da casa de meus pais muito cedo e com um machadinho em punho.

Nos pés calcei patins. Com sensor de presença marcando os símbolos: “papi” e “mami”.

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