Gregory Harlin por Ananyr Fajardo

No telhado

Ananyr Porto Fajardo

Nasceu de boa estirpe e mamou quanto quis. Ameaçava chorar e sua vontade era atendida. O bom comportamento era remunerado com presentes, muitas arminhas de brinquedo, nenhum livro.

Aos dez anos, venceu o campeonato de judô da cidade. Nada de esportes coletivos, tudo individual. Nos trabalhos em grupo, apresentava sua parte sem discutir com os colegas, em um protagonismo solo que alguns definiriam como liderança.

Galã na faculdade, ganhou um carrão e o pai pagava seu INSS. Com vinte anos, não queria mais nada a não ser festa e férias. Virou especialista em burlar a lei.

Trintão, herdeiro da pequena empresa familiar, trocava os pés pelas mãos como quem troca de namorada, e o respaldo em casa o mantinha preso ao conforto. Tinha muitas ideias e pouca iniciativa, o que lhe rendeu a fama de chefinho entre os escassos e esforçados funcionários.

Quarenta e tantos, dois filhos, duas pensões, uma vasectomia – liberdade! Guarda compartilhada não era com ele, pois não conseguia organizar a agenda familiar. Uma menina e um garoto de diferentes idades e gostos insaciáveis, talvez por herança sua, era demais. Tudo era desculpa para devolver as crias antes da noite do seu domingo com elas; no próximo encontro, já teria compromissos para abreviar a convivência obrigatória.

Achou que estaria aposentado aos cinquenta, mas as regras mudaram e os planos com a quarta companheira foram adiados. Mas ela já estava com a vida organizada e, como era autônoma, viajava sempre que quisesse no intervalo entre uma encomenda e outra. Por fim, encontrou um namorado mais compatível com seu bom humor e se mudou para o litoral.

Entrando na melhor idade (quando? como assim?), está diabético, hipertenso e deprimido, tudo por uma solidão crônica. Barbudo, descuidado e obeso, olha o mundo de sua sacada, assiste o noticiário com ceticismo e perdeu a esperança de uma aposentadoria digna.

Um gato observa.

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