Gregory Harlin por Alexandre Wahl Hennigen

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Alexandre Wahl Hennigen

Os últimos dias têm sido excelentes apesar de estar cansado. Diria que venho trabalhando como um cão, mas a crônica de hoje é sobre gatos. Animais interessantes esses. Diz-se inclusive que vivem muito: sete vidas na maioria dos idiomas, em inglês chegam a ter nove. Talvez os felinos sejam mais bem cuidados em países de origem anglo-saxônica, por isso vivam mais.

Falando em tantas vidas, domingo reassisti ao filme Nine Lives do Rodrigo García, filho do Gabriel García Marques, que fala sobre os dramas de nove mulheres. Pode parecer lento, mas é instigante, com enredo que encanta pela sutileza dos detalhes. Lembrei-me da primeira vez em que o vi, quando ainda morava com meus pais. Haviam viajado para a praia. Tínhamos apenas uma televisão. Quando os gatos saem os ratos fazem a festa, e eu me deliciava com o silêncio.

Já com sono, fui para cama. Cruzando para o mundo dos sonhos, comecei a ouvir uma gritaria. Sei que a curiosidade matou o gato, mas não me contive: abri janela e persiana, identifiquei que os gritos vinham do apartamento 308. Olho o celular e tem mensagem do vizinho do 208. “Cara, toda noite é a mesma baderna, te importa de reclamar junto comigo para a síndica?” Como a síndica não aparece há semanas, e quem não tem cão caça com gato, sugeri-lhe que chamasse a polícia. “Mas daí vai pretear os olhos da gateada!”, disse-me ele, que não deixa de ser também um infrator.

Perdi completamente o sono. Comecei a ler Leminski. Não consegui me concentrar nem nos poemas curtinhos. Meu pensamento divagava para quando havia festas aos finais de semana. Seria ótimo ter uma noite divertida como aquelas do fim e do começo do século, idos tempos em que todos os gatos eram pardos. Talvez eu tivesse a idade das minhas vizinhas. A empatia tomou conta de mim: sei que fazia tanto barulho quanto elas.

Passou segunda, chegou terça, choveu cães e gatos. Sem passeio no parque nem saída de almoço. No trabalho, histórias de gente que vive e que morre: um monte de gato subindo no telhado. Encontro forças para enfrentar a semana na promessa do feriado de finados. Aproveito o intervalo para organizar a viagem para Florianópolis. Imagina se não tiver onde ficar de novo? Tudo certo, hotel reservado. Gato escaldado tem medo de água fria.

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