Jane Ulbrich em foto de Mau Saldanha

Garupa

Jane Maria Ulbrich

Cheguei cedo, acomodei meu menino com os brinquedos no carrinho e comecei a arrumar a carrocinha para iniciar a venda de cachorros quentes. Em breve Francisco viria pegá-lo para levar à creche. Mal deu tempo de fazer o preparo dos alimentos, começaram a chegar os fregueses. Por sorte meu menino estava muito distraído com seu novo dinossauro. A rua estava especialmente barulhenta, movimentada, e os fregueses muito apressados. Era terminar um para começar outro. Alguém parou a conversar a meu lado, dei uma olhada e o menino continuava a brincar. Ao procurar o troco para um cliente, ouvi um – Mãe! – e olhei em torno, encontrando-o já à distância a me olhar com um ar desconcertado. Francisco poderia ter esperado eu terminar de atender o cliente para que pudesse dar um beijo em José, pensei um pouco irritada. O menino certamente estava intranquilo, vi pelos seus olhos. Eu sempre o beijava e lhe dava um abraço antes dele ir para escolinha. Tinha acontecido alguma coisa com Francisco, pensei antes de iniciar o preparo de mais três cachorros quentes para clientes estressados. Ao terminar, ele estava parado ao meu lado.

– Ué, tiveste tempo de levá-lo à escola? – disse-me apontando para o carrinho vazio.

– Você está brincando!? – gritei, já sabendo a resposta antes de sair correndo para a escolinha. Francisco, sem entender, corria atrás de mim.

– O que houve? O que houve!? – berrava ele.

Não. Ele não chegara à escola. Não. Ninguém o vira. Não. Ninguém percebeu ele sendo retirado do carrinho. Não. Ninguém enxergou nenhum estranho em nossa volta. Não. Não havíamos feito carteira de identidade. Tantos outros nãos. Não.

Insone, sem vontade de comer, passei os últimos anos a me culpar, a chorar, a gritar por vezes horas a fio até desmaiar. Francisco, sempre silencioso ao meu lado me amparando, sem nada dizer, sem jamais me culpar, a chorar escondido. Mil vezes fomos à delegacia em busca de notícias. Tenho fé, um dia eu o irei encontrar.

Hoje, ele faria 25 anos. A dor? Continua dentro de mim.

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