Esquinas

O centro, na época em que eu lá habitava, era mais estendido. Ou, a mim, parecia. Esticava-se por muitas ruas. Da Andradas à Duque, da Mauá à rodoviária, da Garibaldi aos meados da Osvaldo Aranha, e dessa à João Pessoa. Um miolo próximo do lago Guaíba. Na minha medida e mapa, lugares ao alcance do ir a pé, de onde eu morava na Coronel Vicente. Meu rotineiro percurso de 1979 a 1982 era subir minha rua até a Independência, seguindo pela Annes Dias, com direito a vista para a João Pessoa, Salgado Filho e praça Conde de Porto Alegre, do alto do viaduto José Loureiro da Silva. Caminhava ao longo de quase toda a Duque de Caxias até o Palácio Piratini, que encobria meu colégio, aos seus fundos, o Pio XII. A volta, de costas para o sol que se punha, era inundada por pela luz irradiada que se derramava ao longo da rua. Minha sombra espichada à frente, o corpo bordado em contorno de uma aura dourada. Era a época em que coincidia o ocaso do sol bem no meio da rua.

Dos 14 aos 18 anos, este foi o meu nobre roteiro, cercado de prédios históricos e atuais de importância político cultural. O que me permitiu, em solitária peregrinação de adolescente perdida em si e no mundo, descobrir lugares fantásticos. A Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, onde me refugiava, por vezes sem fim, no silêncio e nas vozes dos livros. O Theatro São Pedro (só por fora, pois não havia recursos para ingressos), a Catedral Metropolitana de Porto Alegre, a Assembleia Legislativa, o Palácio da Justiça do Rio Grande do Sul, o Forte Apache, hoje Memorial do Ministério Público. No miolo deste quadrado, meu oásis. A praça da Matriz. Em seus bancos, aos pés do monumento ao Marechal Deodoro da Fonseca, quantas cartas suspiradas, poemas e desabafos, nas folhas de caderno. Lacrimosos olhares para o verde-azul do céu entrecortado pelos Jacarandás e Ipês. Gastava uma saudade intensa, imensa, que, já desconfiava pela demasia, ser eterna. Em caso de maior precisão, já beirando o desespero, recorria ao silêncio da catedral, buscando um abraço da paz.

Muitas esquinas depois ainda lembro com carinho deste quadrante da cidade que me acolheu inteira e aos pedaços.

Pontos de encontro, de desencontro, de chegada, de saída, de divisão, de continuidade, de mudança de caminho, de dar meia volta, de surpresas, de paragens. São as esquinas. Certamente, passagens.

Algumas deixam marcas.

Esquinas guardam segredos.

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