Douglas Smith por Ronaldo Lucena

Náusea dos dias

Ronaldo Lucena

 

Não era para ter se instalado daquele jeito. Sem me dar conta, ele tomou posse dos espaços. Abriu a porta da frente da casa e se sentou na poltrona mais confortável da sala. Tirou os sapatos. Pediu algo para beber. Quando teve fome, já sabia o mapa das gavetas da cozinha e o segredo da geladeira. Foi educado no primeiro encontro. No segundo, já mantinha a porta do banheiro aberta. Escolheu o meu lado na cama para passar as noites em claro. Fiquei sem sono.

Poderia ter sido só mais um caso, um brinquedo. Dois ou três encontros e a desculpa da rotina para o esquecimento de atender o chamado no dia seguinte, ou no outro e no outro dia. Uma semana e tudo teria esvanecido entre tantos bons passatempos. Mas não foi.

Não consegui ser forte, nem impor resistência aos apelos sedutores. Me envolveu de tal forma que eu queria estar sempre junto. Rastejei, babando como adolescente em primeiro amor. Peço apenas que não julguem, não sejam levianos. Só o façam se ao olhar o espelho não encontrarem uma historinha semelhante. Viu como tem?

Ele me explorou sem limites. Eu seguia os seus passos pela casa, nas ruas, em tantos lugares. Por onde fosse, eu necessitava estar de olho. Quando longe, me mandava recados sórdidos. Eu esquecia o que estava fazendo para percorrer caminhos desconhecidos. Quando menos esperava, ele sinalizava com um pedido exótico, uma desnecessidade, um capricho. Por vezes a conta vinha cheia e doía no dia do vencimento do cartão de crédito. Uma relação patológica pode levar à derrocada. Me vi num beco sem saída, com lixo atrolhado, cercado por muros altos onde eu mesmo fui colocando tijolo a tijolo, lambendo o frio da argamassa.

Quando percebi que estava preso nessa armadilha, fui guardando todas as minhas feridas, como uma náusea reversa, amarga e indigesta. Enxerguei um céu azul, mesmo com algumas nuvens, na janela alta formada pelo encontro das muralhas por mim erguidas. É certo que os abutres dançavam, nos círculos que riam da minha desgraça, lançando riscos de sombras sobre minha alma cadavérica. Ele ainda tinha sede na minha inanição. Ofertei água, ele quis a jugular.

Meu desejo, como último, era que nada restasse dessa relação. Quase sem dor, sem efeito de anestesia, meu último ato foi deletar essa conta.

Adeus Facebook.

 

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