Douglas Smith por Alexandre Wahl Hennigen

Encurralado

Alexandre Wahl Hennigen

Nasceu roxo por causa de uma circular de cordão enrolando o pescoço. A mãe tinha quinze anos, e o pai havia sido encarcerado três meses antes. Quando souberam da gravidez, quiseram mudar de vida, mas de que jeito? Não tinham ensino ou serventia. Gilberto veio ao mundo para sofrer as mazelas do seu meio. Foi abandonado pelos pais, mas não pelo determinismo.

A avó criou-o até os doze anos junto com os outros cinco netos, filhos dos tios e tias que se espalharam pela cidade maravilhosa. Viviam em Madureira, mas ele pedia dinheiro em Ipanema. Durante a noite, perambulava pelas ruas arborizadas, prestava atenção nas orquídeas suspensas nos troncos que tinham outra conotação para seus antepassados. Se esgueirava pelas portas de bares e restaurantes. “Cai fora, pivete, tá espantando a freguesia”. Sabia que os gringos eram os que davam mais dinheiro, abordava sempre que ouvia alguém falando outro idioma. Mesmo sem entender as palavras, ficava claro que sua presença era um estorvo.

Quando chegava em casa, a avó já estava na cama, às vezes gemendo. Aquela dispneia suspirosa que aflige os velhos de espírito, incompatível com as quatro décadas de vida que levava. Não se sabe do que ela sofria, talvez de existir em meio a sucessivos enganos que ultrapassavam gerações. A mulher costurava, lavava, passava e cozinhava pra fora. Para fora ia também o dinheiro, que não dava para nada.

Os primos mais velhos abusavam de Gilberto. Anos de atrocidades depois, Gilberto endureceu. Cansou. Foi embora. Foi para a rua, foi para o morro. Um saco de cola na mão e uma bolsinha com dinheiro na outra, uma pochete cheia de droga que vendia para a juventude bacana do Leblon. Ficava atento aos descuidados: levava uma carteira aqui, pegava um celular ali. Com quatorze anos se sentia rei: prestava contas só para o dono da boca.

Era noite e Gilberto tinha dezesseis. A polícia não devia subir, mas subiu. Ordens de um governador, era época de eleição, ele queria mostrar serviço. “Parado, moleque!” Gilberto não parou. Virou no beco. Encontrou um muro. Ficou preso sem ter como fugir. Os dois policiais avançaram. O menino ainda tentou negociar sua liberdade. Foi pegar dinheiro para dar em troca de perdão por sabe-se lá o quê. Quando alcançou a pochete, ouviu dois tiros, quase em uníssono, um de cada policial. Morreu na hora.

Morreu soterrado pelo lixo da sua condição.

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