Dora Almeida em foto de Anibal Elias Carneiro

Casa sem chão

Dora Almeida

Noé tem um carrinho velho , desses de supermercado, de rodas guenzas, que ele chama de arca pois também é sua casa , casa sem chão, sem paradeiro, que de casa com chão  nem lembra  mesmo,  desde que Delaide  o mandou embora , com razão,  bebia demais, falava demais, brigava demais, respeitava de menos, mesmo  amando demais não amava  que chegasse, não,  hoje só tem o carrinho sem  carinho da Delaide, sem  calor do seu corpo, sua nuca cheirosa, que saudade , hoje só o carrinho, sua  arca sem bichos, sem bichos não porque tem o casal de cachorros , Mimosa e Vinagre, que tem esse nome para lembrar do cusco da sua infância que a mãe dizia, vai te deitar, Vinagre, dirigindo-se tanto a ele, Noé, quanto ao cusco quando a incomodavam na hora da sesta à sombra do cinamomo, hoje nem vê cinamomos nesta selva de pedra da cidade grande, onde as ruas têm árvores mas não tem cinamomos , até tentou fincar chão  na praça  florida mas a moça que agora manda na polícia não quer mais que se more nas praças, lá só pode andar se for com a roupa do corpo e a mochila, não pode estacionar muito menos ficar ,  oh  vida difícil , não tem como viver sem sua arca, precisa para carregar  latinhas e  caixas de papelão, jornais que junta na rua depois vende e consegue uns trocados, também o cobertor fininho com que se cobre nas noites frias e o saco de plástico para  proteger da chuva, a muda de roupa que ganhou de presente e que troca ,às vezes, quando consegue lavar a outra, o negócio é ir levando do jeito que dá , acaba que a polícia sempre dá uma trégua e faz que não vê,  no fundo Noé sabe , é quase invisível, se não falar com ninguém, ninguém fala com ele, se não perturbar pode dormir até mais tarde desde que não seja em bairro chique diante de loja fina, dorme no centro da cidade , embaixo do viaduto é o melhor lugar , chega lá , conta o dinheiro da carteira,  e hoje, suprema alegria, vê que vai dar para tomar aquela cervejinha, ri para si mesmo e pensa no outro Noé , o da Bíblia, que se embebedou com vinho, não sabia de nada esse Noé, pois uma cerveja gelada é muito melhor que vinho, senta no meio-fio da calçada, agora quase deserta , o corpo magro e musculoso de tanto andar e empurrar sua arca, dá comida para Mimosa e Vinagre mais algum outro cão que aparece que ração de cachorro não falta , sempre ganha um pacote , as gentes se importam mais com os cães que com as pessoas, pensa, abrindo sua latinha , estalando os beiços ao dar o primeiro gole , Delaide também gostava de uma gelada, quem sabe amanhã vai lá, pode ser que ela o deixe ficar, quem sabe arruma um serviço e encosta o carrinho no chão da casa dela e volta para  seu carinho, sua cama, o calor do seu corpo, sua nuca cheirosa. Quem sabe?

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