Dora Almeida em foto de Anelise Barra Ferreira

O padre e a moça

Dora Almeida

Não tinha como não saber as horas na cidade para onde nos mudáramos há pouco tempo. O sino da Igreja tocava a cada quarto de hora. No início foi difícil conviver com as badaladas, mas acabamos nos acostumando.

Sete e quinze, te apressa, o relógio bateu uma vez.

Não, foram duas vezes, são sete e meia. Estamos em cima da hora.

Na escola, a professora Cida me passou as turmas dela, pois iria trabalhar em outro lugar. Tudo tranquilo. Naqueles tempos, lecionar era bem mais simples e prazeroso. Durante o recreio, conheci o João, professor de Filosofia. Um tipão, loiro, alto, olhos azuis, era o centro das atenções, João pra cá, João pra lá.

Depois das aulas, minha filha e eu íamos para a praça defronte à Igreja. Eu conversava com as outras mães, ela brincava com as crianças. Fazíamos novas amizades. O sino da Igreja bateu três vezes, quinze para as seis. Nesse dia, surpresa, encontro a Cida. Ela me conta que assistia à missa das seis todas as tardes. Bah, pensei, missa todos os dias! Vá gostar de missa assim, hein!

No jantar de fim de ano da escola, a Cida apareceu. Foi uma festa, venha Cida, guardamos lugar para ti ao lado do João. No final do jantar ele a levou para casa.

Curiosa, perguntei sobre o casal. Sim, estão juntos, disseram-me. Ele prometeu casar logo que o Vaticano o liberar de seus votos. Fiquei estupefata com a história. Estava explicado o motivo da missa diária das seis da tarde.

Passados cerca de trinta anos, agora morando em outra cidade, encontrei uma antiga colega. Perguntei pelos dois.

O João morreu há algum tempo. Viveu com ela toda sua vida, mas não casaram. Ele prometia, mas não conseguiu se desvencilhar do sacerdócio. No fundo, ele não queria, disse.

Cida está sozinha, mas todos os dias, quando o sino bate seis da tarde, ela entra na igreja.

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