Cynthia Torp por Regina Lydia

Fim do dia

Regina Lydia Rodrigues Jaeger

Final de tarde, hora do rush. Resolvi pegar o metrô para chegar mais rápido em casa, todos queriam a mesma coisa. Estava chuvoso e fazia muito frio, estação do metrô cheia. Consegui embarcar no primeiro trem, minha linha não era das mais procuradas. Cansada após dois turnos de trabalho, tive que ficar em pé, só conseguindo sentar depois de três estações. Na quarta, ele entrou: um Pierrô grande e forte, traje a rigor, com as famosas calças de losangos pretos e brancos. Não se parecia com o Pierrô apaixonado, aquele que vivia só cantando e por causa da Colombina acabou chorando. Este tinha pinta de durão, nem sei se chorar, chorava. Vá saber. Quem vê cara, não vê coração. Por cima da fantasia, vestia um casaco de couro preto, a maquiagem ainda intacta, rosto branco com as lágrimas desenhadas. Nas mãos um headphone a balançar, pra lá e pra cá. Seu olhar fixo na porta oposta, como a esperar por alguém. O vagão estava cheio de pessoas comuns como eu, voltando do trabalho, mas só o Pierrô me intrigou, aliás me perturbou. Não tanto pela roupa, mas pelo olhar soturno. O que estaria fazendo com aquela vestimenta, trabalho, lazer? Podia ser um artista de rua, de circo ou teatro. O que o estaria preocupando tanto? Fiquei disfarçando o olhar e, divagando, acabei adormecendo. Quando despertei, ele já não estava mais ali na minha frente. Olhei pelo corredor, nem sombra dele. O vagão já estava mais vazio, restavam a senhora com o gorro, que estava ao lado dele, o casal com o computador e um dos homens de capa. Bem, cheguei na minha estação e fui caminhando os dois quarteirões até minha casa, já pensando nos afazeres domésticos que me espreitavam. O caminho estava mais escuro do que de costume, me preocupei um pouco, pelo menos a chuva tinha dado uma trégua. Abro a porta de casa e o Lobo me recebe aos pulos, choramingando de faceiro. faço uns afagos para acalmá-lo. Tudo quieto, meu marido tinha ido ao futebol com as crianças. Faço um chá para me aquecer e ligo a televisão da sala pra quebrar o silêncio. Estava dando o jornal local e escuto a notícia: “tragédia na linha do metrô no final do dia. Homem ainda não identificado, aparentando entre 30 e 40 anos, morre ao cair nos trilhos do trem. Testemunhas que estavam no local, afirmam que ele estava sozinho no momento da queda. A investigação irá apurar se foi suicídio ou se teria sido empurrado. Um detalhe chamou a atenção dos policiais: o homem vestia uma roupa de Pierrô”.

Um Pierrô desiludido, que vivia só trabalhando e que acabou se matando. Seria por alguma Colombina?

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