Sílvia Duncan em foto de Gabriel Munhoz

Crucificada

Silvia Duncan

7666 –

Lua coberta de nuvens chumbadas. Sinal de mau agouro.

Ao longe um cão uiva.

Gatas miam no cio como clarinetes desafinados.

Ratazanas gordas compartilham espaços nas calçadas com as mariposas da noite.

Garrafas vazias, empilhadas no meio fio, embebedam até baratas que dançam sobre sacos de lixos pretos.

A vida para num repente.

A lâmina rasga o ar e vai parar no ventre da prostituta, tingindo a rua de vermelho.

O cheiro do medo mistura-se ao cheiro de urina e ao de perfume barato.

Despida de humanidade, a mulher é jogada num beco, tal boneca de pano desengonçada.

Olhos vítreos olhando o Nada.

Olhos que não mais sonharão com dálias brancas, porque do chão em que for enterrada, dedos mortos brotarão.

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