crônica inspirada em Alma de Pawel Kuczynski

Sob o manto da civilidade

Autora: Vivi Sleimon

É segunda-feira. E acordo mais uma vez com o canto dos sabiás.

Ainda com os sentidos confusos, meu pensamento foge até uma linda paisagem de campo.

Diante do som majestoso que ingressa pela janela, fecho outra vez meus olhos e respiro profundamente. Sinto o corpo relaxar e a paz chega aos meus pulmões. Então, estico meus braços e corro pelo campo verdejante que aos poucos se desenha em minha mente. Deparo-me com um imenso trigal e experimento meus dedos dançarem nos ramos dourados. As lindas tranças amarelas apontam para o firmamento azul. Um azul tão claro. Céu limpo a serenar meus pensamentos.

Percebo o vento no rosto. Liberdade nos pés. Liberdade!

Por algum tempo, ao som dos sabiás, esqueço que moro em uma metrópole.

Por alguns minutos, saboreio a festa que acontece no cinamomo ao lado da minha janela.

O arbusto, sempre repleto de pássaros, disputa com os carros a atenção dos moradores. A minha, no entanto, sempre foi deles. Tietagem anunciada a longos dez anos de vizinhança.

Enquanto cantam, brigam os machos emplumados pela demarcação do território, e também por suas fêmeas, e eu sigo deitada a suspirar. As imagens me fazem percorrer um espaço mágico e me ponho a cantarolar tal qual uma criança.

Como é bom ser sabiá!

Reflito sobre a beleza da vida. Penso nos pássaros e arbustos que insistimos em olvidar na correria do dia-a-dia. No sorriso e no olhar sincero do filho que não somos capazes de notar, sempre apressados para cumprir algum ícone na agenda. Na benção que é estar vivo e poder desfrutar de paisagens tão belas e coloridas que, todos os dias, nos esquecemos de observar.

Percebo a insensatez dos olhos, que repudiam o horizonte e pousam apenas na pequena tela do celular.

Então o despertador grita. Um gemido estridente e desarticulado quebra o encanto, lembrando-me dos compromissos que aguardam. Levanto da cama. De forma automática tomo meu banho. Nas gotas da chuva artificial efetivamente desperto. Será mesmo que desperto? Visto o pretinho básico de sempre, tão diferente das plumas alaranjadas. Neste mundo, pouco espaço há para a dança das cores. Escondo meus sentimentos sob o manto da civilidade.

A magia da natureza termina assim: sem cor, sem som, sem espaço.

É quando pego as chaves do carro que coloco minha máscara. Durante o trajeto, a carcaça vai se moldando. Serenidade sendo deixada para trás. Liberdade que finda quando enraízo meus pés sob a mesa de trabalho.

Respiro fundo. Abro meus olhos e sincronizo o pulsar do coração aos números digitais no canto direito da tela. A respiração encurta. A vista também. E assim resisto a mais uma jornada de trabalho, atenta às imagens e às sensações artificiais que a rotina impõe.

Sobrevivo até um novo despertar. Como é bom ser um sabiá!

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