cronica inspirada na obra de Jean Michel Folon

Pés flácidos

Autor: Luciano Sclovsky

No meio da noite acordaram: a cama sacudia levemente. Meio sonolentos, não entenderam. Quando perceberam a inclinação, assustados arregalaram os olhos. O quarto estava escuro. Agora a posição estava normal, mas logo a inclinação ficou oposta.

Perceberam que um dos pés do móvel crescia no chão, flácido. Nunca gostaram daquela cama. Preferiam que fosse branca, como as que viam por aí, na casa dos amigos. A deles era de madeira escura, não tinha grades de proteção, o que lhes deixava inseguros. Era pesada, mal se movia, rangia em algumas noites, mas isso não lhes causava aflição.

O que eles tinham medo mesmo era do armário. Lá onde se escondiam os monstros, que a mãe zelosamente fechava a seu pedido. Nunca imaginaram que a cama viraria um deles. Foi o que pensaram quando os pés flácidos da cama que se movia começaram a subir, chacoalhando eles num frenesi de lençóis. Quase caíram mas se agarram no estrado que havia no fundo.

Ao se olharem novamente começaram a chorar e a berrar por um tempo muito longo. Pelo menos assim lhes pareceu, pois a mãe continuava ausente. Sempre fechava a porta do armário, mas hoje ela foi lenta, ou surda. A cama de pé já ensaiava passos bamboeantes pelo quarto. Eles quase bateram a cabeça no teto, mas seguravam firme.

Pararam de gritar quando a cama saiu pela janela, que se abriu num instante para dar caminho ao veículo com seus passageiros. “Uau”, foi o que disseram, e do susto agora mergulharam na aventura. Acharam que a cama iria voar, mas as pernas, agora bem longas, se esticavam até lá embaixo, no telhado dos prédios. Cada pé de madeira encostava suavemente nos telhados, mas não causava dano. “Não vai furar a telha?” Foi o que o menino disse. E a menina respondeu que agora a madeira era de pluma.

A Lua iluminava o passeio deles, viam todas as casas da vizinhança lá de cima, procuravam as casas dos amigos e, felizes, viram até um dos cachorros.

Foi quando a mãe entrou no quarto e perguntou se queriam que fechasse a porta do armário.

– Agora não, mãe!

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