Crônica do Mosaico Oficina Santa Sede

Pegadas

Autora: Letícia Prata

“A água bateu, o vento soprou, o fogo do sol, o sal do senhor

Tudo isso vem, tudo isso vai

pro mesmo lugar de onde tudo sai”

Gilberto Gil/João Donato.

O ano, 1979. Não sabia bem o motivo, mas acordou com a presença da casa de Jauá impregnada no corpo. Revirou o baú há muito guardado, buscando reminiscências de um tempo que pensava esquecido.

Feito criança que nasce sem aviso, ouviu ao longe “fogo pagou, fogo pagou”, as rolinhas que sentavam na cerca anunciando a sua chegada.

Passeou pela memória.

Viu a panela de feijão pendurada no alto para afastar o perigo dos ratos, escutou o barulho da vassoura na varanda. A retirada dos móveis, a armação das redes. Sentiu o medo de escorpiões escondidos, o pesadelo da picada; o frio do chão de cimento, a luz do candeeiro refletida na parede, o cheiro de querosene misturado no vento quente do final de tarde. A brisa branda percorreu seu rosto.

Lembrou do banho de balde, do poço fundo no quintal – a sensação da água fria jorrando sobre sua cabeça -, o miado da ninhada achada pela irmã na estrada de terra e da  alegria em cuidá-los.

Escalou as dunas no sol escaldante, sentiu suas pegadas na areia, seus pés penetrando o solo, a sensação de não sair do lugar, o cansaço da subida, e a recompensa de chegar ao topo. De lá, avistava-se ao longe o mar. Na frente, um horizonte branco despontava em direção ao infinito.

A menina resgatou a infância.

É preciso silêncio para ouvir o risco na natureza, amplificado pelo canto dos pássaros.

Foi o dia que a mãe sentiu as dores do parto, o medo da perda, o corte e o fruto, raiz e semente. Milagre e desconcerto: Vida.

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